domingo, 13 de abril de 2014

PROGNÓSTICOS

         EIS que hoje tomei o táxi aqui, defronte ao prédio, para ir ao hospital. Ia visitar minha mãe, ainda internada. Uma inquebrantável sensação de impotência acercara-se de mim após sua última piora. A avalanche de pensamentos técnicos que se misturava à minha crescente afeição ferida tomava proporções gigantescas, e já não seria capaz de pensar com clareza. Chorar vinha bem a calhar, mas começo a pensar que sequei. Meu coração está despedaçado por vê-la assim, num leito de CTI, coberta com edredões e lençóis que escondem a contínua violação de seu frágil corpo. Ainda assim me fogem as lágrimas. Não será possível que as tenha derramado todas. Devo a ela, em grande parte, as poucas vezes que chorei na vida: - criou-me para não chorar. E, nessas poucas vezes, foi ela quem me ajudou a secá-las. Devo, então, ainda ter bastantes lágrimas.
Assim, olhava pela janela e imaginava o calor implacável lá fora, tentando pôr asas em meu pensamento. Julgava que contribuíra para a gripe que contraíra, mais uma. Fiquei imaginando se não estava a chorar através de meus débeis leucócitos, a me tornar tão vulnerável neste último mês em que ela adoecera.
         Que fazem conosco, os médicos, quando nos ensinam esses critérios prognósticos atrozes? Seus espessos tratados nos ensinam, na frieza e na rudeza de suas expressões pétreas, esses malditos critérios prognósticos a traduzir o exaurimento de nossos recursos. São deuses de barro, os médicos, vestidos em seus longos jalecos cerzidos impecavelmente, a lhes servir de scutum contra a humanidade, sua própria humanidade. Ah!... serve talvez a lhes secar as lágrimas, ainda que a dor pungente e inexorável de suas estatísticas lhes não poupe nem a eles próprios! Como agora acontece comigo.
           O trânsito infernal - que muitos imputam ao progresso, mas que nada mais é do que a cristalização de nossa imensa e crescente mediocridade  é silencioso. Os vidros estão fechados, o condicionador de ar está ligado. O trânsito agora é apenas uma ilusão, como a tela de um cinema a passar uma fita muda de categoria duvidosa. Minha janela me separa daquele mundo como um caleidoscópio gigante. Carlão, o motorista, resmunga qualquer coisa sobre o bairro onde mora. Uma de suas intermináveis histórias tem início.
          Só ouço quando diz que tem de pagar pedágio para entrar e sair do bairro. Que os traficantes mandam em tudo por lá. Que ontem viu quando desembarcaram um carregamento de marijuana em terreno baldio próximo à sua casa. Que, por coincidência, vira tudo pela fresta da janela da cozinha quando fora beber água. Qua sua luz acesa chamou a atenção dos bandidos. Que, no outro dia, cedinho, numa motocicleta, dois facínoras lhe vieram perguntar se vira algo, para intimidá-lo. Que respondeu que nada via porque não tinha tempo de ver nada. Que sua mulher, que fica sozinha em casa, muitas vezes lhe chama ao celular pedindo-lhe que volte para casa, sem admitir que passe o dia a morrer de medo porque todo o bairro é refém do crime. Que todos os dias lá aparecem carros de luxo, roubados e lá levados para a “entrega”. Que a polícia lá vai, mas para receber a sua parte. Que sua única filha casou recentemente e alugou um apartamento lá mesmo. Que quer vender a casa e sair de lá o mais rápido possível. Que tem um revólver e que os bandidos não deveriam nem pensar em mexer com um dos seus. Que os seis vigilantes contratados pela vizinhança para lhes dar segurança foram todos – repito: todos! – assassinados.
           À minha sensação de impotência somou-se a de terror. Esta é a cidade em que nasci, mas soube hoje que aqui não quero deitar meus ossos.
           Adentrei o hospital pelos fundos. A mais serôdia a morrer é a esperança.

Fernando Cavalcanti, 07.04.2010