quarta-feira, 27 de abril de 2011

No caritó

               Ontem saímos a caminhar na orla João e eu, como é de praxe há já algum tempo. A corrida? O cooper? Ele foi, eu não. Não sei se lembram quando lhes escrevi sobre minha pubalgia. Lembram? Se não lembram, vamos lá.
            Estava a jogar futebol e senti, num lance, a fisgada ao pé da barriga. Foi uma coisa pouca, uma espécie de alfinetada. Passou. Continuei no jogo por mais uns poucos meses, até o dia em que senti o rasgão, como se meus músculos estivessem se esfiapando, no mesmo local. Era a tal pubalgia. Fiquei de molho por um longo tempo. De fato, ainda estou sem jogar, e nem sei se vai dar pra voltar. Eis aí o que lhes contei há não sei quanto tempo. As novidades vêm a seguir.
            Depois peguei um cotovelo de tenista. Nem tênis eu jogo, mas estava lá, em meu cotovelo direito, a lesão dos tenistas. Foi na musculação. Suspendi a musculação e cá estou, fraquinho da silva. Não levanto nem um saco com um quilo de algodão.
            Restava-me continuar a corrida na orla, ali na beira-mar, umas três vezes por semana. O diabo é que a gente vai pela cabeça dos outros, que nem piolho, e se dá mal. Os outros estão aí a correr feito doidos, seis, dez, vinte quilômetros. Estão querendo virar o Dean Karnazes. Não sinto a pubalgia ao correr, de modo que corria. Repentinamente veio uma dorzinha no joelho direito. Nada forte, mas que, com o tempo, passou a incomodar. Fiquei parado duas semanas, sem nenhum exercício. Na semana passada voltei a uma corrida leve, intercalada com caminhadas.
            Resumindo: sou o ultra-lesionado atleta. Resignação, paciência e repensar os limites, meus limites, foi o legado que me restou.
            Estou falando tudo isso por quê? Lembrei. O João avistou ontem, na orla, o Xavier, seu amigo do Direito. E repete, quando o vê, sempre o mesmo refrão: -“É o melhor implante do Ceará!”, referindo-se ao implante de cabelo a que seu amigo se submeteu. Com efeito, a cabeleira do Xavier está perfeita. Ninguém dirá, ao vê-lo pela primeira vez, que o homem tem cabelos postiços. A cabeça está plenamente coberta. Não lhe restou uma entrada, uma tonsura, uma brecha por onde se possa ver-lhe o couro. Vê-se bem que cuida zelosamente de seus fios. Está sempre bem penteado.
            Quando fui apresentado ao homem o João não hesitou: -“Xavier, o melhor implante do Ceará!” E desde então, ao encontrá-lo, repete: -“O melhor implante do Ceará!”
            E contou-me mais o João sobre o melhor implante do Ceará: tem medo de casar. Ou melhor: não quer casar. Já foi casado? Não sei. João não mo disse. Ou disse? Creio que disse. Ainda que tenha dito, não me lembro. Digamos que nunca tenha casado. Pois não casa nem a tiro. A pergunta que me faço é: por que fez o implante? Sabe-se lá. Hoje se atrai a fêmea para outras propostas. Antigamente a proposta era o enlace matrimonial. Hoje não.
            Cogito a possibilidade de o Xavier cultivar a cabeleira justamente para fugir ao assédio, já que a marchinha canta que os carecas são, com as mulheres, os maiorais. O Xavier quer, na hora do aperto, ser mesmo preterido em função de um careca. Faz sentido.
            Careca ou não, sabe muito bem o Xavier – e isso era assunto debatido com entusiasmo outro dia numa roda de varões vigorosos e entediados do casamento – que as mulheres de hoje estão tão sequiosas dos véus quanto antigamente, ao tempo da vovó. Mesmo as que já experimentaram malogradamente a vida conjugal não querem voltar ao caritó. Estão dispostas a casar quantas vezes forem necessárias.
Por isso foge o Xavier, dizendo-se disposto a também implantar quantos fios de cabelo precisar para manter sua cabeleira de Chitãozinho. Quer sempre ser preterido na hora do aperto. A ele só interessam, com uma mulher, os deliciosos momentos de lazer. É compreensível.