sexta-feira, 29 de abril de 2011

Suspiros

Muito me tocou saber que a promotora chorou em audiência pública em plena câmara municipal. Não viram? Pois chorou. Eu não vi, mas li nos jornais, dos quais só leio as manchetes. E, pelo que li, teria sido apenas um soluço, um engasgo emocional, um suspiro entrecortado. Durante a fala, discorrendo sobre o atraso a que uma criança era submetida em seu atendimento, a promotora segurou – ou melhor, não segurou – a emoção.
            Qual será o resultado prático disso? É certo que nenhum. Prático mesmo foi o Alex Mont’Alverne, secretário municipal de saúde, que conseguiu na justiça um habeas corpus preventivo que o isenta de participar dessas tediosas audiências públicas que examinam o caos na saúde do município. Para ele a saúde do município vai muito bem, obrigado. Não sei se seria o caso, mas difícil mesmo é colocar um mau e irresponsável gestor público na cadeia. Penso até que o senhor Alex Mont’Alverne exagerou. Secretário de governo não precisa de habeas corpus. Sua função já o blinda. Nós, reles mortais, é que suspiramos numa nostálgica depressão e numa tristeza cósmica.
            Suspiros de debochado tédio é o que deve estar a acometer a nossa excelentíssima prefeita Luizianne Lins. Desenha-se em seu horizonte próximo uma greve geral dos servidores municipais. São funcionários de vários órgãos e secretarias a se encontrar em assembléias para deliberar sobre aumento de salários. Ela deve estar a praguejar entre dentes: -“Lá me vêm esses chatos novamente!”
            Ia me esquecendo de uma do senhor Mont’Alverne. Ele disse, a propósito do relatório da comissão de saúde da OAB/CE, que “a situação [hoje] é completamente diferente de um ano atrás. Ela mudou drasticamente e radicalmente em relação ao relatório”. Presumimos, então, que em um ano a prefeitura mudou tudo na saúde. Das duas uma: ou o senhor Mont’Alverne está para ser internado na Casa Verde do Dr. Simão Bacamarte ou toda a comissão da OAB/CE o será. Cogito uma terceira e mais negra hipótese: toda a população de Fortaleza deverá ocupar a Casa. Seremos uma cidade dentro da outra, da Itaguaí do Dr. Bacamarte.
O senhor Mont’Alverne tem razão em determinado ponto. A coisa mudou radicalmente e drasticamente em um ano – está muito pior. Ele alega que Fortaleza gastou na saúde cento e cinqüenta milhões de reais a mais do que manda a Constituição. O que não sabemos é como ela gastou e que manobras contábeis utilizou para demonstrar isso. Mas os resultados são conhecidos de todos. E quando se fala nos incômodos resultados ele se sai assim: -“A saúde é complexa e cara. Não há medida capaz de sanar os problemas.” Pergunto: -“É mesmo, senhor Mont’Alverne?!” Parece ou não discurso de quem quer emendar um novo imposto, como o do pessoal do Planalto? Por que será que nossos gestores querem sempre aumentar a montanha de dinheiro que arrecadam?
Quando penso nisso tudo choro tanto quanto a promotora. Mas choro em casa mesmo, que não sou besta de chorar em público. Ademais, o meu pranto não se compara ao da autoridade. Choro o choro convulsivo, soluçante, corízico. Um rolo de papel higiênico não basta. Por isso concluo: o choro da doutora foi sincero, surdo e sofrido porquanto contido.  
E por falar em choros e suspiros, hoje foi um dia repleto deles. Desde cedo, pela manhã, no hospital, era um cafungado danado, uma fila de narizes endefluxados e pletóricos. Perguntava de mim para mim: -“Que será isso?” E eram uns aparelhinhos de TV ligados em todos os postos de enfermagem, com as mulheres ali penduradas como se hipnotizadas. Lá pelas tantas perguntei: -“Que é isso?” E responderam em coro: -“É o casamento do príncipe!” A coisa toda durou pela manhã e quase adentra a tarde. Foram tantos e tantos suspiros que até eu fiquei cansado. A conclusão fatal: tem gente a não mais poder no caritó. O casamento do príncipe foi uma punhalada nesse povo, mas por ele não choro, não.