segunda-feira, 25 de abril de 2011

O anti-amigo Padilha


Ligou-me o Padilha. Fez um rodeio danado e afinal foi ao assunto. Queria um atestado médico.
            O sujeito que é médico hoje em dia está vulnerável a uma lista infindável de inconveniências. Duas delas são dignas de nota por sua freqüência. A primeira é a “consulta de campo”; a segunda, o atestado mentiroso.
            Expliquemos o que seria o que resolvi chamar de “consulta de campo”. A consulta de campo é aquela em que a pessoa quer ser “consultada” em qualquer lugar, exceto no consultório. O que é o consultório? Ora, é precisamente o lugar onde o médico atende os pacientes. Atender pressupõe uma entrevista e um exame físico detalhados. Logo de cara se percebe que não é possível atender nem mesmo no corredor do hospital. Corredor de hospital é exatamente o mesmo que um corredor de qualquer lugar. O corredor é uma rua dentro de um edifício. Não é possível entrevistar e examinar um paciente em qualquer corredor, mesmo o do hospital.
            A consulta de campo é uma invenção das pessoas leigas, do brasileiro talvez. O brasileiro quer sempre dar um jeito de avacalhar as regras e de maquinar atalhos para tudo. Por isso pôs na cabeça que se pode facilmente chegar ao diagnóstico através do relato, no corredor, de um único sinal ou sintoma. Ele presume que o médico é um vidente, um médium, um adivinho. Outro dia na festa a mulher queria saber o que lhe causava certa dormência na ponta do dedão. Disse-lhe que corresse dali mesmo ao hospital mais próximo, pois poderia estar prestes a ser vítima de uma apoplexia. Desconheço se ela aceitou o meu conselho, mas seguramente lhe passei minha mensagem de indignação pessoal.
            A definição de atestado mentiroso se dispensa por ser a expressão auto-explicativa, mas acrescentarei veemência à palavra “mentiroso”. Ora, o que vem a ser alguém ou algo mentiroso? No pai dos burros da língua madre está a definição – é o “que diz mentiras”. Assim, o atestado mentiroso é aquele em que se diz uma ou mais de uma mentira – freqüentemente se dizem várias – , em que o médico afirma que o sujeito está doente sem ele estar, e assina embaixo. O atestado mentiroso é uma mentira por escrito. Seu autor não pode nem mesmo se dar ao luxo de, noutra mentira, negá-lo.
            Era esse o tipo de atestado que o Padilha me pedia, no intuito de se livrar de uma dívida não sei de quê nem com quem. Devo acrescentar o detalhe. Foi a própria instituição que lhe sugeriu o documento, porque só assim, diziam, poderiam lhe perdoar a dívida. Como foi a própria instituição que sugeriu a manobra ilegal, Padilha concluiu que não há problema algum em eu lhe fornecer o atestado. Eis aí o cenário de minha vicissitude.
            Reza o filósofo, orador, advogado e senador romano Marco Túlio Cícero que só é possível a amizade entre os virtuosos, e que o amigo é aquele que não pede o que o outro não pode, não quer ou não deve fazer. Aí está a base moral e filosófica para uma decisão de se emitir ou não o atestado mentiroso. E nem estou apelando ao código de ética médica, onde está explicitado o crime que é a emissão desse tipo de documento.
            Fica também óbvia a visão que muitas instituições têm sobre a classe médica – é a classe que mente, devem pensar. E já nem pensam somente. Afirmam.
            Disse ao Padilha que falaríamos pessoalmente sobre o assunto. Creio que não percebeu meu desconforto nessa procrastinação proposital. Ficou crente de que eu o forneceria, pois quis argumentar sobre o tema quando lhe dei uma resposta negativa ao nos encontrarmos. Pergunto: há controvérsia sobre a ilegalidade do atestado mentiroso? Não há. Não cabem aqui opiniões ou argumentos. É ponto pacífico.
Padilha quis argumentar. A emenda saiu pior que o soneto. Comecei a pensar seriamente e concluí – Padilha está mais para anti-amigo.