sábado, 2 de abril de 2011

Amigos picas-grossas

O problema com a vida, para os que aprendem de verdade e aplicam o que aprenderam, é que quando ela começa a ficar interessante não dá mais para fazer muita coisa. Para os que não aprendem e os que aprendem errado cogitam-se várias saídas, inclusive a de sair da vida “a pedido”. Outro problema é que, quando se é jovem – ou mesmo já não tão – pensa-se sempre que há um tempão pela frente, ao passo que quando se olha para trás no caso dos não tão jovens, o tempão que já passou parece um tempinho. Mais uns anos e se estará literalmente consciente de que não há mais tempo algum pela frente e que, de fato, para trás ficou apenas um tempinho de nada que mais se assemelha a um suspiro. Não sei se me faço entender.
            O caso é que estou a ver amigos de infância – sou dos sujeitos que mais colecionam amigos do tempo das fraldas – alçarem posições e feitos em suas áreas de atuação profissional, e se tornarem famosos por isso. Outro dia ligo a TV enquanto faço uma refeição e o que vejo? O meu querido e amado amigo Ricardo Lopes. Tornou-se presidente... não, não é assim. Tornou-se Presidente (com P maiúsculo) da Junta Comercial do Estado do Ceará. Estava a participar de um programa de TV local com outros dois cidadãos importantes. Enchi-me de orgulho e empáfia por ver aquele garoto de anos passados ter chegado onde chegou. Em criança brincava de calção e pés descalços, as unhas dos dedos rachadas de tanto dar chutes nos paralelepípedos das calçadas e ruas da nossa provinciana Fortaleza. Agora, ali estava ele engravatado num terno de fino corte respondendo a questões cruciais sobre a repartição que preside.
            Perguntará alguém: e daí? E direi: continua o mesmo Ricardo, o mesmo garoto, a mesma pessoa em sua índole de homem de bem, porque foi criança de bem. Teve berço, teve escola. Teve família, e ainda agora a tem. Tem ainda apelido, que aqui e agora não convém revelar posto que aos íntimos se o reserva.
            Passou.
            Dias depois, talvez um mês, um mês e pouco, ligo novamente a TV para uma refeição – para mim a TV é um digestivo muito leve, quase uma enzima salivar – e quem vejo? No mesmo programa, em debate jornalístico, vejo o meu querido e amado amigo José Dias, Presidente do Sindicato das Indústrias Químicas etc. etc. etc. do Estado do Ceará. E discutiam, ele e outros importantes senhores, sobre a implantação da refinaria da Petrobrás aqui no estado. O Zé – os amigos o chamam Zezinho – é amigo de longa data. O chato perguntará novamente: e daí? Direi, repetindo: continua o mesmo Zé, o mesmo Zezinho. Sua essência guarda o mesmo aluno levado e brincalhão que foi um dia, ao tempo das merendeiras escolares. Meu orgulho e peito estufado cresceram ainda mais. Se se desabotoar o elegantíssimo terno do Zezinho e se o observar estará lá, sob ele, o mesmo Zezinho de sempre.   
            Para esses amigos – e outros que ainda verei na TV – nosso tempo foi bem curtinho, porquanto o que é bom parece não durar, ou queremos que dure para sempre. Ali na frente, qualquer dia, nos encontraremos como antes, os mesmos meninos levados que vestem paletós e gravatas que insistem em não crescer, ainda tentando brincar como meninos descalços e sem camisas, nus de pedantismo e falsa sisudez, alegres e livres.
            Se pensarmos melhor, que bom que é assim com esses dois exemplares de estirpe. Para falar a verdade, é exatamente por isso que são de elevada estirpe. Não sucumbiram ao estrelismo e à vaidade de suas posições. Por baixo do terno há uma criança ainda sagaz e sedenta de alegria e amor pelas pessoas. Continuam nutrindo os que os amam, como eu, de orgulho e desejo de mais sucesso e vitórias; continuam a fazer parte dos que sabem que o mais importante não são seus carros, seus paletós, seus bens e sua fama; sabem que o mais importante são as pessoas.
            É verdade que tenho outros bons e grandes amigos mais recentes que galgaram postos de importância e evidência. São deputados, vereadores, secretários de estado, prefeitos, políticos de uma forma geral. É bom saber que por debaixo de suas roupas de grife há ainda o homem ou a mulher com quem se brinca numa conversa informal e que se dispõe a ouvir a opinião de alguém. Oxalá continuem assim, e que também se empenhem com verdadeira vontade a mudar a maneira de se fazer política nesse Estado fazendo, eles próprios, essa mudança tão esperada.