segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

POSCONCEITO FEMINISTA

               Seu Valmiro Queiroz está cansado. Sim, esse ano foi de morte. Nada deu certo. Percebe-se facilmente em seu semblante que está se segurando para não explodir, ou não fazer uma besteira. Para falar a verdade, não foi somente agora que as coisas desandaram. Já faz algum tempo.
               Até há dez anos – hoje tem sessenta e um – era o maior salário de uma grande e conceituada empresa. Tinha imóveis, carros, obras de arte... Todo ano trocava de carro duas vezes, no mínimo. A mulher e o filho metido a galã também tinham carros caros, ostensivos, brilhantes. Fins de semana em qualquer lugar do país não eram exatamente um problema. Coisa de rotina. Não precisava esperar as férias para fazer uma viagem. Encafifava e ia bater em qualquer lugar com a patroa, que ele hoje chama de "dona encrenca". Há dez anos não a chamava assim. Afinal, dona encrenca tinha tudo. Gastavam o que tinham e o que não tinham. Em suma, levavam uma vida confortável e invejável. Até o plano de saúde era coisa de tirar o fôlego: - trezentos e oitenta reais por cabeça! Bons tempos aqueles...
               ​Então, veio a cacetada. Perdeu o emprego, e o maldito Plano Collor lhe tomou todo o dinheiro da venda de uns imóveis que pusera na poupança. Era um caixa dois, mas não importa. O governo rouba a gente, a gente rouba o governo. A venda de um terreno em Camboinhas defronte à praia lhe rendera duzentos mil dólares. Numa outra venda, um apartamento na Barra, apurara outros duzentos mil. Perdeu tudo num piscar de olhos.
    ​           O bom da história é que sobraram alguns imóveis de menor valor, e que hoje lhe rendem algum dinheiro de aluguel. A droga da aposentadoria da previdência social lhe paga uma miséria. Não dá para nada. Só o condomínio do prédio onde mora custa duzentos e vinte reais. E ainda tem que pagar a luz, o telefone e a gasolina do único carro que lhe restou, um Gol 95. Não sabia ele, então, que o pior estava por vir: - o implacável diabetes. Sim, um mal que insidiosamente morde o indivíduo dia após dia pelo resto de seus dias. Consome cada órgão, cada parte, cada vida.
               ​Pois o maldito diabetes consumiu-lhe os rins. Nunca mais urinou. Por isso furaram-lhe o corpo todo. Para filtrar o sangue seria preciso colocar um tubo grosso numa veia grossa. Puseram-lhe tubo nas virilhas, nas clavículas, no pescoço... Depois já era preciso a maldita fístula. A primeira não deu certo, a do punho direito. Teve que fazer outra no cotovelo do mesmo lado, que também não prestou. Depois lhe fizeram outra no outro punho. Outro fracasso. Finalmente, a quarta tentativa desenvolveu a porcaria da fístula. No começo funcionava que era uma beleza, mas depois deu problema. Começou a roubar o sangue do resto do braço. A mão ficava fria e dormente. Temia perdê-la para a gangrena. Com essa fístula ladra não seria possível fazer a diálise e tirar finalmente o tubo do pescoço. Meu Deus, já não agüentava mais aquele troço preso, pendurado com aqueles esparadrapos no pescoço...! Tinha ímpetos de arrancá-lo. Só não o fazia porque sua vida dependia dele. Vida só com o tubo. Nem pensar em removê-lo!
               Ah... como fora infantil até dez anos atrás! Depois disso estivera internado em quase todos os hospitais da cidade. O ano corrente? Já não via a hora de ele acabar! Fora um péssimo ano. Parecia brincadeira, mas, para completar, a unha do pé esquerdo crescera encravada, obrigando-lhe a usar chinelos. O maldito chinelo lhe fez dois calos enormes no outro pé. Ainda assim, só podia andar de chinelos. Aonde quer que fosse tinha que usar os chinelos. Dona encrenca vivia implicando com ele por isso. Onde já se viu o sujeito andar de chinelos pra cima e pra baixo?! Por isso largara dela. Não queria vê-la nem pintada! Que diabos! O sujeito doente, perambulando por hospitais dia e noite, ligado permanentemente a uma máquina, a vida em função da maldita máquina, tentando salvar o braço doente que o tratamento criara, e a mulher azucrinando por causa dos malditos chinelos!!...
         Contou-me tudo isso debruçado na amurada do posto de enfermagem, melancólico e nostálgico.
        -"O senhor bem que deve encher o saco da mulher também, né"? - perguntou uma Cacau feminista até os sapatos e ouvinte de resto de conversa alheia. 
           -"Mas eu sou apenas em homem doente e mais nada!...", implorou franzindo a testa e perplexo por perceber que ainda assim não havia perdão para ele.
     Fiquei olhando-o afastar-se com seu andar pesaroso e frustrado. Não derramara uma única lágrima. Apenas foi embora para mais uma sessão de diálise. 
          E Cacau? Bem, ela não deu a mínima. Dali a pouco encontrei-a em sua sala remexendo alguns papéis e certamente pensando: -"Foda-se o marido doente!"
          Nunca pensei que as mulheres pudessem ser mais implacáveis que o maldito diabetes.

 Fernando Cavalcanti
Rio, 18.11.1998