quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Uma inveja danada do Seixas

          O sujeito pode ser pouco ou muito conhecido. Por exemplo, o meu amigo João Seixas Lima Filho.
          O Seixas é dos sujeitos mais puros que conheço. Cirurgião Geral de mão cheia, jamais se encheu da empáfia e da vaidade comuns a esse tipo de gente. Conheci-o há, sei lá, quase trinta anos, quando era médico residente no Hospital Geral de Fortaleza. Ele já atuava no setor de Emergência do hospital. Depois me tornei seu parceiro na mesma Emergência e, em seguida, na enfermaria do pós-operatório. É fato: - doutor Seixas não mudou nada em seu caráter aparentemente taciturno, em seu humilde exercício da profissão, em seu deslavado desprendimento e, acima de tudo, em sua excelência técnica e humanismo. Diria, pelo contrário, que os aperfeiçoou e aprimorou.
          Falei de seu caráter taciturno. Se levarmos em conta uma taciturnidade que evoca a pessoa silenciosa, pouco falante e nunca prolixa, essa será a característica mais marcante do Seixas. Ele não é tristonho e muito menos sombrio. Dirá alguém: -"Torce pelo Ferrim"! É ponto pacífico que o torcedor do "Tubarão da Barra" é, acima de tudo, um resignado, um manso, o que aparentemente coloca o Seixas dentro do perfil do torcedor coral. Pois pasmem: - o homem é torcedor do Ceará. Nunca aquele torcedor iracundo, dado a arroubos de violência ou descontrole emocional. Seu equilíbrio não advém de uma vigilância auto-imposta, própria daqueles que sabem existir dentro de si, como no romance de Robert Louis Stevenson, o monstro prestes a emergir, mas de seu natural estado de espírito, sempre propenso à mansidão, à delicadeza. Os decibéis de sua fala são tão suaves que por vezes torna-se difícil escutá-la em ambientes turbulentos e ruidosos. (Imagino-o assistindo a um clássico Ceará X Fortaleza no “Arena”. O gol do Ceará e contra o Ceará não lhe afetará em absolutamente nada.) 
          Alguém há de insinuar que pessoas assim só se deixam revelar, muitas vezes, quando tomam um gole de cerveja ou similar. Garanto: - dez goles de cerveja em nada alteram a essência e a superficialidade do Seixas. (Disse dez goles mas poderia ter dito vinte, ou trinta.) O Seixas de dez goles de cerveja é o mesmo do de nenhum gole, do de vinte goles, do de trinta goles... Quero crer que seu pileque seja o sono mais profundo e suave do planeta. 
          Mas estou aqui falando do Seixas e quase me esqueço de falar ao que vim. O Seixas, por seu temperamento reservado, há de ser um sujeito pouco conhecido, eis o que queria dizer. Apesar de todas as sua excelentes qualidades, Seixas permanece quase no anonimato profissional ou, melhor, somente os humildes o conhecem. Em suma, é feliz em sua pacata e serena vida. Não frequenta as redes sociais, e sua única paixão – por sinal uma paixão sem o fervor do mais amiúde – resume-se aos jogos do Ceará. Seu exercício profissional está repleto de sucessos, mas nada disso vem ao conhecimento do público, tanto pela natureza discreta de seu caráter quanto pelo classe de pacientes que ajuda. Diria também que sua natureza reservada não atrai a simpatia da maioria das pessoas, de modo que sua atuação exitosa não sensibiliza uma sociedade que tanto odeia.
          Ora, a discrição de meu amigo é tamanha que até ofende. A mim, por exemplo. Tempos atrás o Rodriguinho Landim virou-se e falou: -"És amigo de todo mundo"! Aquilo foi um soco no estômago. Como, por todos os santos, posso ser amigo de toda uma China e mais que uma China, de todo um planeta?, era o que me perguntava. Sou um sujeito de poucos amigos e de muitos amigos. Dito de outra forma, sou um sujeito de muitos poucos amigos. Significa que os poucos amigos que tenho são muitos. (Não sei se me entendem.) O que quero dizer é que, comparado à maioria das pessoas, considero que meus poucos amigos são muitos. É isso.  
          Antes disso, anos atrás, o Casoba dizia: -"És um 'pomada'"! Ele queria insinuar que sou dado a atividade de "lubrificar" minhas relações à guisa da satisfação de meus interesses. Vê-se que melhorei. De "pomada" passei à amizade planetária e além fronteiras.  (Ele estava, de fato, enciumado com meus muitos poucos amigos. Essa é que é a grande e inegável verdade. Chamar-me de "pomada" era um chiste, uma galhofa.) Meus interesses? Meus únicos são o amor dos que amo e paz. Como poderia ser um "pomada"?
          Outro dia, acho que foi ontem, estou ali defronte ao mercadinho da esquina esperando ficar no ponto o frango assado que queimava na churrasqueira. Os carros passavam descendo a rua e eu beliscava a porção de frutas secas que comprara pouco antes. Súbito, para, no meio da rua, aquela caminhonete preta, dessas rechonchudas providas de potentes motores e apetrechos e que custam os olhos da cara, e o vidro do motorista começa a descer. O sujeito que dirigia o veículo estampava no rosto o sorriso aberto e franco e na cabeça uma cabeleira vultosa e aloirada, difícil de encontrar em indivíduos de sua idade. Olhava para mim e dizia qualquer coisa.
          Não foi necessário entender o que ele dizia. Era algo carinhoso que denotava sua felicidade em encontrar-me. Numa fração de segundo o reconheci: - era o meu amigo Héverson Paranaguá da Paz, oftalmologista de primeira estirpe e irmão de armas. Estreitamos nossos laços de amizade ao tempo da caserna. Ele ia estacionar o carro no meio da rua para melhor falar comigo quando alertei-o, em tom de brincadeira, que se o fizesse causaria um transtorno ao trânsito. Ao mesmo tempo bati-lhe a continência e disse: -“Meu querido tenente”!...  Ele sorriu, acelerou e foi-se. Se Bella estivesse comigo diria: -"Você conhece todo mundo"!... 
          Por isso estou escrevendo estas notas. Estou sentindo uma inveja danada do Seixas...