quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Baluarte

              Sei que meus pontuais leitores, se é que ainda os tenho, detestam que se fale de futebol; e pior: - detestam quando se fala mal do futebol. Tanta coisa há para se falar sobre tanta coisa que, para eles, nada justifica que se fale de futebol e mal do futebol. Isso sem se mencionar que estamos em ano de copa do mundo e copa do mundo no Brasil. Vivemos num país maravilhoso, onde tudo corre às mil maravilhas; as crianças estão sendo educadas no mais elevado padrão moral e técnico; os serviços prestados pelo setor público estão entre os mais eficientes do mundo; nossas cidades são lugares aprazíveis e nelas somos felizes por nos sentirmos seguros e usufrutuários de bons transportes, serviços de saúde, escolas de alto nível. Enfim, a copa do mundo demonstrará ao resto do mundo que atingimos o tão almejado desenvolvimento, representado por nossos últimos índices econômicos e sociais. Ainda mais. Nosso povo, pacífico e gentil, traz na face sua mais cristalina felicidade, diferente da falsa felicidade de anos passados, lastreada em puro e simples hedonismo e superficialidade, quando a vida era encarada e vista como um momento único para se aproveitar ao máximo suas delícias e prazeres. Para o completo aproveitamento desses prazeres importava, durante aqueles negros tempos, acumular o máximo de dinheiro e bens a qualquer custo e utilizando-se de qualquer meio. Nossa felicidade, após a implantação de nossa educação esmerada, a qual nos encheu o coração de humanismo, sensibilidade, humildade, amor gratuito e respeito extremo pela vida, mudou radicalmente sua base. Finalmente, viramos gente.
               O diabo é que os amigos que adoram futebol e torcem apaixonadamente por seus times de coração me escrevem para opinar. Por exemplo, o Betinho Limeira e o Sérgio Moura. Um é Ceará, o outro é Fortaleza, dois times de primeira linha do futebol brasileiro. Ambos são ratos de estádio de futebol. O Sérgio, de tão apaixonado pelo esporte, não poupa estádios. Vai a qualquer um onde jogue seu escrete. Vai até no Alcides Santos, o estádio do Fortaleza. O Alcides Santos, apesar da posição do Fortaleza no ranking do futebol nacional, não é um estádio do qual se possa dizer "nossa! que estádio fantástico!". Não, absolutamente. É um estádio assim mixuruquinha, pequeninhinho e, de fato, mais se parece ao zoológico do que a uma praça de esportes. Lá abundam os cajueiros, as bananeiras, as goiabeiras, os limoeiros, os pés de sirigüela... Nessas árvores vivem os soins e, quiçá, macacos-pregos desses que servem de macaco de realejo. Vez ou outra o Fortaleza lá recebe algum adversário para o embate futebolístico. (Parece que o último foi o Itapipoca, grande e tradicional escrete do futebol brasileiro e mundial.) Pois o Sérgio despencou-se da paz de seu aconchegante lar, onde cultiva belas, coloridas e odoríferas flores e mantém um deck com churrasqueira e piscina, e embrenhou-se no Alcides Santos, localizado, se não me engano, no Pici, um nobre bairro da capital cearense repleto de magníficas praças e atapetadas ruas e avenidas, para assistir ao jogo entre seu time e o glorioso Itapipoca. Sua empreitada foi recompensada com a vitória tricolor. (Faço esses comentários apenas para demostrar o efeito da paixão futebolística sobre o cérebro desses nobres varões vigorosos.)
               Eu ia dizendo que me escrevem os amigos. Escreveu-me, pois, o Beto Limeira para fazer uma ressalva. Ele, repito, é um apaixonado torcedor do Ceará e vai ao estádio de futebol desde o tempo das fraldas. Pois eis que ele assistia, n'algum dia em longínquo tempo, a um jogo entre seu time e o Ferroviário. Como ia o jogo? Ora... Diria que o Ferrim apanha desde tempos imemoriais e que não foi diferente àquele dia: - o Ceará aplicava uma senhora tunda ao tricolor. Súbito, uma senhora de certa idade, torcedora do time coral, ergue-se na arquibancada e, rodopiando a bolsa no ar, exclamou: -"A porra desse time é como asma: - melhora mas nunca fica bom"!... E partiu praguejando o Ferrim até a décima geração passada e futura. 
               A ressalva é a seguinte. Após dizer de minha ojeriza ao futebol atual, eu disse ontem que os torcedores corais são os lordes do futebol universal. O fato ocorrido com o Betinho demonstra que exagerei um pouco, não muito. E até é compreensível o comportamento da sofredora torcedora. Ninguém aguenta sofrer calado a vida inteira. Chega o dia em que o cristão explode e desce dos sapatos para amaldiçoar seu algoz, que ninguém é de ferro. Tenha a santa paciência!... Terá sido exatamente o que aconteceu. 
               Escreveu-me também o Sérgio Moura. (O Sérgio, aos que se não lembram, é o amigo que "morre" a cada 15 de novembro, dia de comemoração de seu aniversário.) Como é torcedor do Fortaleza, exultava pela vitória sobre o Itapipoca no Alcides Santos. Escreveu: -"Torcer é bom. Futebol idem. Mas torcer Ferrim, aí é demais"! Devo admitir que concordo com meu amigo na última frase do período: - torcer Ferrim é o cúmulo! O Ferrim bem poderia ser elevado ao mesmo status do Ceará e do Fortaleza como time de notória qualidade no cenário nacional. Mas aí já seria, como se diz, "esticar a baladeira". 
               Os amigos que torcem pelo Ferroviário, como o Chico e o Marcelinho, hão de agastar-se comigo por eu ter fantasiado tanto com o Fortaleza, o Ceará, e até o Itapipoca. O sujeito que torce pelo Ferrim é raramente fulminado por ataque cardíaco por conta de uma emoção futebolística. Já os torcedores do alvinegro e do tricolor do Pici, ao contrário, estão altamente propensos a este funesto e potencialmente letal evento. O comportamento errático e irregular desses clubes gera, muitíssimas vezes, expectativas positivas além de suas verdadeiras potencialidades. Assim, são comuns as frustrações abissais que eles suscitam em seus torcedores. O sujeito portador de uma placa de ateroma nas coronárias pode, numa situação como essa, ser vitimado por um infarto. Felizes os torcedores do Ferrim. Pobres torcedores do Ceará. E do Fortaleza. 
               O Itapipoca? Até há pouco nem time de futebol tinha. Cadê o Calouros do Ar? E o Maguary? O futebol cearense é, de fato, um baluarte do esporte brasileiro.