sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O brilho fátuo da amizade

Tarde chego a casa e, espírito revolto, procuro-me ao espelho.
De fato, lá estou, a cara murcha, cabelos hirtos, quase cinqüenta aos couros.
         Vejo-me mais um pouco e penso: como hoje, ainda agora, me deixo ser vítima da decepção, esta mazela que depende inteiramente de mim? Decepção é a frustração dos tolos.
          Tolice é esperar no outro. Que faz o outro? Faz o que quer. Ponto final. Não faz o outro o que queremos, ou o que julgamos ser justo, correto, bom. O outro faz o que quer e bem entende.
           Que pensa o outro? Pensa o que quer e bem entende, a seu bel-prazer. Escolhe pensar o que o exime da culpa, sem a consciência a lhe importunar.
             Um amigo – já nem sei se a alguém é possível imputar tal comenda, mas vá lá – um amigo, que se diz ateu e estava às turras com Deus, bradava feroz: -“Irão para a destruição eterna os maias e os incas? Que absurdo!” Direi a ele que, como Deus é justo, há de julgar cada maia e cada inca segundo cada consciência. Em suma: - só Deus, que tudo fez e tudo sabe, é capaz de saber onde está cada consciência, cada intenção. Ainda que tenha dado a Lei, saberá julgar com sabedoria cada coração e cada suspiro que não aprendeu a Lei. O guarda de trânsito não o isentará da multa por desconhecer a lei.
              Ocorre que o guarda não é Deus. E, afinal, quem pode sondar o espírito de Deus? Decepciona-se aquele que o faz. É um tolo, mais um tolo. A decepção para com Deus é a maior das tolices que o néscio pode cometer. Ao dilúvio só Noé e sua casa sobreviveram. Todos os demais eram uns bobões. Pereceram em sua tolice.
               Conheço um cara que mostra como faz para ganhar sua fortuna, a quem o quer imitar, dentro de seu próprio avião. Eles, os que o ouvem dentro de seu avião, têm o disparate de lhe dizer na cara que o que ele faz não funciona. Que burrice!... Conclui-se que os tolos desencaminham.
               Quantos amam um tolo? Muitos e muitos. Um tolo desencaminha muitos e muitos. Os muitos e muitos que um tolo desencaminha são ainda mais tolos que seu guru. Os brutos também amam, todos sabem. Os brutos são tolos. Assim também os  tolos amam. Nada é mais pernicioso que um amor de tolos. É como um câncer metastático que comprime ao crânio o mínimo de massa cinzenta residual.
                Ah!... minha decepção atesta de meu resquício de tolice, não importando seu tamanho. Que importa que tamanho tenha a tolice se sua hediondez é a mesma? Olhando no espelho me enfatuo de minha própria estupidez. Morar sozinho ainda não é o bastante. Seria o caso viver só? Dize-me com quem andas etc. etc. etc.
                 É tarde. Decido amanhã se ainda assim ando.

Fernando Cavalcanti, 23.07.2010