segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Para Rousseau, o futebol seria uma merda

               Meu compadre Chico Heli esteve ontem a me tentar. Mais que uma tentação, a coisa era, de fato, uma mofa, um gracejo. Ele queria saber se eu permanecia em minha ojeriza ao futebol.
               Fomos almoçar, botar a conversa em dia, jogar conversa fora. No restaurante bateu o telefone pro Marcelinho, o caçula e meu afilhado. Dali a pouco chega o garoto e resolvem: - vamos ao jogo. Às cinco da tarde, no estádio Castelão – hoje americanamente chamado "Arena Castelão" – jogariam Fortaleza e Ferroviário. (Os torcedores do Ferroviário o chamam carinhosamente de Ferrim.) 
               Resolvido que iriam, sacaram do telefone portátil e falaram com o amigo Denys Godin, o mais brasileiro francês que já conheci. Ele demonstrara, em certo episódio, sua vontade de conhecer o novo e, segundo dizem, maravilhoso estádio. Não deu outra: - o francês topou na hora. 
               (Denys é tão brasileiro, mas tão brasileiro, que resolveu se aposentar em Paris e vir morar no Brasil. Vejam que há gente pra tudo. Não apenas resolveu o Denys vir morar no "gigante" entorpecido, digo, adormecido como escolheu Fortaleza a cidade para viver o resto de seus dias. Observem que ele é um homem novo – tem 49 anos – e que "o resto de seus dias" tem tudo para ser uma penca de dias. Se assim for, Denys envelhecerá à medida que a cidade piorar, já que tudo aponta para isso. Enquanto isso, Paris...) 
               Assim, o grupo do Chico para ir ao Fortaleza X Ferrim estava quase formado. Faltava apenas uma pessoa: - eu! Tão logo desligou o telefone, após falar com o Denys, ele virou-se para mim e fuzilou: -"Vamos ao Castelão, bicho"? A pergunta vinha eivada da entonação que apela para o coração e para a companhia de bons amigos a se divertirem num estádio de futebol. 
               Ora... Por uma fração de segundos, devo confessar, admiti a possibilidade de ir com eles. A única razão para isso era a vontade de estar com os amados amigos. Contudo, lá estava ela, a ojeriza, inabalável, inteira, indubitável, genética. (Meu avô paterno detestava futebol. Até a copa de França, em 1998, eu ainda nutria por esse esporte a simpatia e o furor que muitos de meus amigos apaixonadamente lhe dedicam. Desde então, o gene de meu avô paterno pareado ao da indiferença vindo do lado materno foi ativado, assim como ocorre à certa altura da vida com outros tipos de genes que são "ligados" em determinado momento de nossas vidas.)
               Os pouquíssimos leitores que tenho, além de tudo isso, devem lembrar-se do que eu já disse sobre torcer pelo Ferrim. Aos que não se recordam e aos que não tomaram conhecimento do que eu falei, repito: - a emoção daqueles que torcem por esse time de futebol é semelhante àquela do que joga ou assiste a uma partida de paciência. E não somente uma, mas cem partidas, ou mil, ou dez mil, tanto faz. Uma partida de paciência não altera em nada a frequência cardíaca do jogador nem do espectador. Ambos saem da partida em incoercível e incontrolável torpor serotonina-induzido. 
               Voltemos ao Chico e seu projeto de assistir pessoalmente ao chamado "clássico das cores". Que fiz, afinal, após um leve, muitíssimo leve ímpeto de acompanhá-los? Resposta: - neguei-me peremptoriamente. A recusa foi tão veemente que nem Marcelinho, meu afilhado, ousou tentar-me convencer. Voltei para casa e eles foram-se à "Arena". O Chico me falava, durante o almoço, de um tal Iarley, contratado pelo Ferrim, jogador de excepcionais qualidades que fizera não sei quantos gols num time cujo nome justo agora me escapa. A esperança ia de vento em popa com a recente aquisição do para mim desconhecido Iarley: - o Ferrim havia de botar o Fortaleza no saco. (A bem da verdade e com exceção das sumidades, todo jogador de futebol é para mim, repito, um ilustre desconhecido.)
               Hoje, ao abrir um de nossos péssimos periódicos, deparo-me com a seguinte notícia: "Ferrão leva sacode". Que significa isso? Fui ver. E achei o seguinte: - o Ferroviário levou do Fortaleza uma coça, uma goleada, uma "lavagem", como se diz na gíria do futebolês. Perdeu de 4 X 0. Não houve Iarley que desse jeito. Olhando a escalação, publicada no jornal, percebi que o elenco coral incluía até mesmo um ator de cinema, o Jack Chan. O repórter deve ter-se enganado pois o nome correto do homem, que de fato é seu ocidental pseudônimo, é Jackie Chan.
               Só agora percebo que não falei o principal. E o mais importante a ser dito é que o Chico e o Marcelo torcem pelo Ferroviário. Como na genética da ojeriza pelo futebol, pai e filho torcem pelo sofrido Ferrim, que de tanto apanhar nem mais assusta. E melhor. De tanto apanhar, o Ferrim, que a reportagem chamou de Ferrão, nunca perde torcedores para a conhecida "virada de casaca". (Ia esquecendo de dizer que o Chico torce pelo Ferrim porque seu pai, o "véi" Heli, assim torcia, noutra demonstração da real existência de uma genética do e para o futebol, seja para a ojeriza, seja para o amor a ele.) 
               Os torcedores do Ferrim são verdadeiros fósseis do chamado esporte das multidões. (Tudo que se refere à multidão me enoja. Aonde vai a manada, é aonde não vou. Se ela vai para o norte, vou para o sul; se ela vai ao leste, vou para o oeste, e assim por diante.) Mas, como ia dizendo, o sujeito que torce pelo Ferrim é um baluarte, um empedernido, um teimoso de carteirinha e sindicato. Nunca, jamais, em tempo algum conheci um torcedor do Ferrão que fosse fanático, desses que choram ou brigam quando as coisas não vão bem para o time. (Para o Ferrim, quase sempre as coisas não vão bem.) O torcedor do Ferrim é, antes de tudo, um resignado, um conformado, um manso. São bem educados e não fazem barulho; nunca se metem em confusões, comuns nos estádios de futebol a propósito da imbecilização do sujeito quando parte de uma massa. (Vide o Rousseau e, se não me engano, o Rubem Braga.) 
               Em suma, os torcedores do Ferroviário Atlético Clube são os lordes do futebol, um esporte repleto de trogloditas e tubarões. E mais. São lordes não somente do futebol nacional, mas do futebol universal. (O futebol mundial é uma alucinação, uma miragem, uma idiossincrasia. Ele só existe como mercado. Nele se vendem tênis da Nike e camisetas do Messi. O legítimo futebol, o verdadeiro, o real é, de fato, universal. Quando o homem puser os pés em Marte há de surpreender um Fla X Flu marciano com uma Arena lotada.)
               Há pouco bati o telefone para o Chico. Ele não atendeu. Estou absolutamente convicto de que nada tem a ver com a humilhante derrota de seu time para o Fortaleza ontem. Pro Marcelo não ligo. Ele está muito ocupado estudando para fazer um concurso público. Padrinhos são pais que ficam na reserva. Sem trocadilhos.