terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Dinheiro, votos e beijos

          Bateu-me o telefone o Aristides para dois dedos de prosa. 
          Não, não, esperem aí. Ninguém sabe quem é esse Aristides. E por que não se sabe quem é ele? Simples: - ele é conhecido por seu apelido e somente pelo apelido. Desde criança, um corpo mirrado de fazer dó, chamam-no de Pitoco. Cresceu, ganhou corpo ainda que permanecesse magro, e não deu outra: - Pitoco e sempre Pitoco. 
          Pois eis que ligou-me o Pitoco. Foi um blá-blá-blá medonho, ao fim do qual se despediu. Disse: -"Pois então 'tá certo. Um beijo"! E eu: -"Um beijo"! 
          Os amigos leitores hão de estranhar, ou talvez não estranhem. Hoje em dia nada mais assusta. Ou, melhor, assusta, sim; mas não se tem a devida coragem para demonstrar a inevitável indignação. Assim, e antes que um ou outro tenha acessos, direi que aos irmãos se permitem beijos, independentemente do gênero. 
          Minto. Não é somente aos irmãos que são permitidos os ósculos: - a todos os que querem demonstrar apreço é permitido o beijo. Aliás, o que mais falta hoje é o beijo. Dirá alguém que estou a dizer asneiras porquanto beija-se a torto e a direito, e direi que não, em absoluto, não se beija nem um milésimo do que o momento exige. Está em falta, portanto, o beijo. 
          Não falo do beijo interesseiro nem do beijo social, cumprimento deveras impróprio para intimidades inexistentes. A essas ocasiões serviria melhor e mais apropriadamente a saudação inglesa, formal e respeitosa. É essa inflação de beijos inconvenientes que transmite a falsa sensação de sua abundância. Mesmo o Cristo foi traído com um beijo, de modo que há beijos e beijos. Há de existir um animal que "beije" a presa antes de devorá-la: - precisamente o bicho homem quando abandona sua humanidade. 
          Hoje ao abrir o jornal, por exemplo, dou de cara com mais de meio milhão de beijos, o que pareceria um paradoxo ao que acabo de afirmar. Logo se verá que não é esse o caso. Foi o seguinte. 
          O ilustre ex-deputado José Genoíno foi condenado e apenado a seis anos e onze meses de prisão mais multa de R$ 468 mil no processo do mensalão. A esse valor há ainda que se somar correção monetária. Que fez a família do homem? Iniciou uma campanha para arrecadar dinheiro para o pagamento da citada multa. 
         Ontem venceu o prazo para o pagamento da penalidade, o que foi feito sem o menor atraso. A família do homem fez, na Justiça, o depósito de R$ 667,5 mil, valor atual da pendência. Consta que ainda sobrou dinheiro, mas não se divulgou quanto. Estou quase acreditando que arrecadou-se quase um milhão de reais nessa brincadeira. A campanha foi, como se bem pode ver, pra lá de bem sucedida.
          Agora vejam os senhores. Esse Genoíno é irmão do também deputado José Guimarães, do PT, aquele cujo acessor, José Adalberto Vieira da Silva, então secretário de organização do PT no Ceará, foi pego tentando embarcar no aeroporto de São Paulo, em julho de 2005, com 100 mil dólares escondidos na cueca e 200 mil reais guardadinhos na bolsa. Uma dinheirama dessa, carregada por aí dessa maneira, indica que boa procedência ou bom destino ela não tinha. Resultado: - Genoíno foi obrigado a deixar a presidência do PT, na época, e foi condenado pela Suprema Corte no processo do mensalão.
          Estarrece o fato de que uma manada de gente tenha contribuído para dar dinheiro para o pagamento de uma multa advinda de uma sentença condenatória transitada em julgado na mais alta Corte do país. Ou seja, não era um único o condenado: - era uma manada de condenados que faziam questão de ser condenados e contribuíram como condenados. A manada não agiu como Judas, que traiu; nem como Pedro, que negou. A manada se acumpliciou e assentiu, ratificou o crime, beijou com amor não o criminoso, mas seu ato delituoso. A manada renegou a sentença do criminoso e, se pudesse, a rasgaria em picadinho. 
          O José Guimarães, irmão do condenado, livrou-se da acusação de envolvimento com a gangue do mensalão e com o dinheiro que o acessor transportava. Como prêmio, quatro anos depois do episódio da roupa íntima que serve ao transporte de elevados valores de procedência criminosa, ele recebeu 210,3 mil votos para deputado federal e tornou-se o segundo candidato mais votado nas eleições de 2010. Vejam que os beijos abundam para todos os lados, ainda que sejam beijos da pior espécie. Duzentos e dez mil e trezentos beijos não é coisa a se desprezar. 
          Mas há pior, bem pior. Estamos prestes a assistir de camarote à avalanche de beijos que promete cobrir as raposas brasileiras, desde as mais conhecidas e até as aparentemente improváveis. Serão beijos ardentes, apaixonados, calorosos, aprovadores. Serão os beijos dos cúmplices, dos cegos e dos omissos. A indignação, ao lado do beijo entre irmãos, está, definitivamente, em baixa.