quarta-feira, 28 de maio de 2014

Bundão

          No firme e inabalável propósito de me interpor aos amigos que exorcizam a comemoração da passagem do natalício, resolvi, há três semanas, convidar os mais chegados convivas a um humilde regabofe. Tudo por conta da passagem de meu próprio natalício. Foi no agradável solar de meu compadre e amigo Chico. Um deque, uma piscina, boa música, um churrasco de carnes nobres, tudo regado a umas geladas cervejas a aliviar a canícula de um sábado ensolarado e de límpida abóbada. 
          À medida que passa o tempo, fogem de si os amigos. Ocorre na razão direta. Quanto mais passa o tempo, mais aumenta a distância e mais rarefeitos os momentos em comunhão. As forças centrífugas da vida são imbatíveis. Nada parece resistir a esse inexorável impulso de separação dos que se amam. A menos que se esteja atento a ele, vai-se o tempo e a vida até que a morte nos colha. Enquanto há vida, há oportunidade; enquanto há vida, há saudades; enquanto há vida, é possível. Na morte vai-se a memória, o amor, as saudades, a oportunidade... Tudo se deixa, nada se leva. Na morte vive-se apenas nos corações dos que nos amam, assim como se vive somente em seus corações nessa distância da vida. Assim, se não se convive, morre-se antecipadamente uns para os outros. 
          Outro dia fui à rede social e, coisa curiosa, lá vislumbrei o inusitado: - mortos reais em suas páginas virtuais. Sim, acreditem. O sujeito morreu e lá permanece, na rede social, sua página. Como zumbis virtuais, os amigos mortos continuam vivos na virtualidade. Alguns, os mais recentemente partidos, ainda recebem recados de seus mais próximos familiares e amigos. Ao dia de seu natalício, são parabenizados como se vivos fossem. Tudo isso é a mais deslavada evidência de nosso inconformismo com a finitude e a mais deslavada evidência de que o homem não foi criado para desaparecer. 
          Numa atitude que me pareceu a mais sã possível, decidi interromper a amizade que morreu na morte do outro. Sua lembrança assim, numa página de rede social, contrapõe a mais moderna e espantosa tecnologia do século XXI à velha e secular senhora inexorável, com a vitória desta última. Não há esperança para o homem na tecnologia, eis a verdade. Não há esperança para o homem na ciência, na falsa ciência. O perfil do morto mantido na rede social é um gritante sinal de nossa tecnopatia recente e ilusória.
          Mas, voltemos à rapioca entre amigos. Resolvi iniciar o negócio às três da tarde, horário em que os que trabalham já estão livres, horário em que os que têm filhos pequenos já lhes encaminhou a vida, horário, enfim, em que já se torna possível uma patuscada descompromissada e livre de pendências. No convite, feito com a devida antecedência, fui explícito o bastante: - "venham os que quiserem, venham os que puderem, venham os que vivos estiverem".  E fui claro: - a humilde reunião alongar-se-ia até as oito da noite, com a possibilidade de delongar-se até horário indeterminado caso nela permanecessem os que sempre anelam pela eternidade desses mágicos momentos. Com isso quis deixar à vontade de cada um tanto a hora da chegada quanto a hora da partida. 
          Os que me lêem quererão saber a razão de tanto zelo e de tanta prolixidade nas palavras de um convite. Sim, porque à certa altura da vida a objetividade é cultivada e desejável a fim de mitigar as dúvidas e os mal-entendidos. Ocorre que, de uns tempos para cá, tenho recebido cobranças e reclamações por parte de amigos, alegando que ando ausente em demasia. Consciente da inveracidade desses protestos, quis demonstrar minha total disponibilidade para receber a todos durante o tempo que dispusessem. 
          Afora a falta daqueles que sabia eu estarem impossibilitados de comparecer por razão de força​ maior, houve uma falta que primou pela comicidade que suscitou. Seu protagonista foi nada mais nada menos do que o meu querido amigo e irmão Antonio Torres Braga. A comicidade de sua falta advém justamente da certeza inamovível que o homem me deu de seu comparecimento. 
          Eram nove e pouco da manhã e eu ainda dormia quando bate o telefone portátil. Olhando o identificador, vi claramente, ainda meio sonolento, o nome de meu amigo. Atendi.
          Ele assegurou: - "Desculpe, bacana, mas disquei errado. Ia ligar para outra pessoa, mas aproveito pra te avisar que mais tarde, logo mais, estaremos lá no Chico pra te dar aquele abraço". Disse-lhe que o esperaria para tomarmos juntos uma cerveja, e nos despedimos. 
           Cheguei à casa do Chico por volta das três da tarde como combinado, e dali a pouco os convivas foram chegando. Lá pelas seis recebo uma mensagem do Braga garantindo a presença. Dizia: -"Chego já"! Pouco depois aparece o Tomasinho, sempre retardatário, sempre chegando depois de todos, às vezes no final da festa. Deu sete horas e bate o telefone portátil. Era o Braga novamente. Disse: -"Estou meio atrasado, mas chego já, já"... Deu oito, deu nove... Lá pelas dez a mensagem fatal e definitiva: -"Amigo, infelizmente não poderei comparecer... Não estou bem"... Na dúvida sobre o que o amigo quis dizer exatamente, e apostando que seu mal-estar não seria físico ou orgânico, respondi por mensagem e já meio de pilequinho: -"És um bundão"...