terça-feira, 20 de maio de 2014

Rede social, uma impostura

          Sou, cada vez mais, um mero espectador na rede social. E, por isso, hoje senti saudades. E digo ainda mais, olhando aqui meio que enviesado para o meu telefone portátil.
          Na rede social vejo quem não vejo há anos e, podem ter certeza, falo de muitos anos. Na rede social vejo quem está a seiscentos quilômetros, ou a três mil quilômetros. De fato, vejo quem está a doze mil quilômetros. Esses conhecidos ou amigos distantes no espaço e no tempo estão aqui, na ponta de meu dedo. Posso lhes falar, lhes cumprimentar; lhes dar bom dia, boa tarde, boa noite; posso parabenizá-los pelo natalício, pela formatura, pela conclusão do doutorado; posso solidarizar-me com suas tragédias e exultações tão amplamente divulgadas lá, na rede social... Posso, enfim, estar perto estando longe, dirão os admiradores da tecnologia da informação e os defensores dessa proximidade virtual hoje possível. 
         Porém, hoje percebi com nitidez: - na tela de minha mídia, qualquer que seja ela, existe, de fato, um abissal vazio. Não há ninguém ali. São apenas imagens, fotografias que secundam e extraem minúsculas partes da realidade e da vida das inúmeras pessoas que supostamente conheço. Penso que suas vidas são um continuum, uma ininterrupta seqüência de sensações, atos, atitudes, interações e sentimentos do ser que vive, e dos quais não participo. A formatura ou o nascimento do bebê são extratos momentâneos, não dinâmicos, um ponto mínimo desse continuum alheio a mim e à minha vida. Por mais que me congratule e que interaja, não me satisfaço com a quase imposta superficialidade da relação virtual. Ademais, há o tempo, as poucas horas do dia a limitar o que posso viver. Ou bem vivo a vida real, ou bem vivo a virtualidade, ressaltando que é na realidade onde estão as atitudes que urgem serem tomadas; é nela onde minhas ações impactam a vida das minhas relações; é nela que minhas ações e decisões hão de afetar diretamente a vida de terceiros. Na virtualidade, eis a verdade, não há relacionamentos, não há convivência, não há compartilhamento de vidas, não há verdadeira amizade...
          Por mais que haja quem afirme o contrário – as pessoas pensam o que escolhem pensar –, a verdade é que tentam nos iludir e enganar com a idéia de que a rede social se tornou e é fundamental para a vida "moderna". No mundo dos negócios a propaganda de produtos, de serviços prestados e de profissionais especializados parece ter-se tornado uma ferramenta poderosa na alavancagem das vendas e do comércio. Não é difícil compreender esse fato. Mas, daí a aceitar cegamente que a rede social preenche os perenes anseios do ser humano por relações afetivas reais já extrapola o bom senso e a evidência em contrário. Aí estava a razão de minhas saudades.
          Recentemente alguém definiu "saudade": - é o amor que fica. Tenho antigos e mais recentes amigos que moram no exterior, em países tão longínquos que chego a pensar estarem noutro mundo. Mesmo dos mais antigos amigos, por exemplo, amigos do tempo das fraldas e que não encontro nem vejo há mais de trinta anos, sinto saudades. E por que sinto esse sentimento de vazio e de lonjura dessas pessoas, mesclado a um sentimento de doçura e amor imutável por elas? Há uma única explicação: - o compartilhamento de nossas vidas durante certo tempo. Mais ainda. O compartilhamento de muitos momentos inesquecíveis porquanto permeados de inocência mútua e de amor desinteressado durante aquela fase mágica da vida em que nada somos senão crianças ou quase crianças; aquela curta e aparentemente eterna fase em que somos imortais e objeto da atenção amorosa de nossos pais também imortais... Vejam que essa saudade jamais seria curada na rede social. Somente o reencontro pessoal, na vida real, que preenche o frágil e fugidio tecido do tempo, pode mitigar uma mínima quantidade dessas saudades. Ainda que seja possível apenas um rápido reencontro, ele servirá para manter essas saudades mais vivas quando do distanciamento que se seguirá. Queremo-la mais viva porquanto renovado ficará o amor e as doces e ternas lembranças, algo literalmente impossível na famigerada rede social.
          Para encurtar a conversa, diria que rede social não aproxima nem reaproxima ninguém. Não da forma, nem minimamente próximo da forma que a vida real é capaz de fazer. Pelo contrário, a rede social tem sido palco de desentendimentos e disseminação de ódios e querelas entre desconhecidos da vida real que ali se expõem e se engalfinham. Ora! Que diachos quero eu a confabular com quem não conheço de fato? Leio e vejo as mais estapafúrdias opiniões e idéias na rede social e nem por isso saio no encalço de seus autores e donos. Eles que fiquem lá com suas crenças. Nada tenho com isso. Combate-se uma idéia com outra idéia recheada de sólidos argumentos, na impessoalidade e sem pretender mudar a opinião e a idéia alheia. 
          Repito, o ser humano escolhe o que pensar, muitas e muitas vezes sem a mínima reflexão, sem o mínimo questionamento, sem a menor busca por maior conhecimento que lhe dê lastro. Pior. Frequentemente o ser humano bebe em fonte contaminada sem se aperceber que está a sofrer de envenenamento. A dialética vai para as cucuias, enquanto os fatos – ah! os fatos...! – são completamente desprezados e ignorados. 
          Assim, é fácil concluir que a rede social é apenas mais um "brinquedo" que a tecnologia criou. Amor virtual? Beijos e abraços virtuais? Sexo virtual? A humanidade se engana cada vez mais...