sábado, 31 de maio de 2014

Transviado

        Não compreendo por que ages assim. Não precisas de ninguém. És o chefe, o provedor, o que põe a cara a tapa dia após dia. Levas o barco às costas.
        Para ser sincero contigo, me envergonhas. De há muito te conheço. Por vezes me pergunto se de fato te conheço. Muitos hiatos se interpuseram ao longo de nossas vidas. N’algum deles podes ter te tornado em algo que não conheço, que nunca vi. Tudo pode acontecer na vida de alguém.
        A título de exemplo te conto uma história. Há algum tempo reencontrei aquele que julgava bom amigo. Numa comemoração de aniversário, lá estava ele. As mudanças físicas normais do corpo nunca apagam a caricatura básica. Penso que no fundo somos todos caricaturados. Permitimos ao longo da vida nos deformar. As adaptações julgadas necessárias, as ambições desmedidas, as inseguranças persistentes, os temores fundados e infundados, todos nos assinalam traços indizíveis. Eu estava para fazer a constatação.
         Lá estava ele, o amigo dos tempos de infância, sorridente e persuasivo como outrora. Em criança a inocência nos molda ao sabor de nossas ilusões e desconhecimento do bem e do mal. Julgava eu que meu amigo ainda abrigava em si sua doce fantasia de criança. Eu mesmo retrocedia no tempo, tamanha a minha ingenuidade. Quando a infância é suave e bela, nos deixamos regredir sempre que algo ou alguém nos transporta ao tempo. Descobrimos quão felizes éramos. Queremos voltar. As doces lembranças nos esmagam ante a realidade atroz. Foi o que senti ao rever meu amigo.
          Falou-me de seus percalços, de seus pesadelos, de seus sucessos. E, dias depois, nos reencontramos. Como se quiséssemos reaver os bons tempos, pactuamos a amizade diária. Queríamos os telefonemas, as cumplicidades e selos de uma amizade ferrenha. Parecia possível. Parecia que nada poderia ter mudado naqueles mais de vinte anos. Para mim – tola ingenuidade! – a vida me devolvia o amigo que ela me subtraíra no complexo tecido de sua trama.
          Contudo, dentro em pouco caiu a máscara que lhe escondia a deformidade do caráter. Nem vale a pena enveredar por detalhes de tão dolorosa descoberta. Seria sofrer duas vezes. Eis aí a história.
          Agora tu, meu outro amigo. Em que te tornaste? Por que te permitiste nada ser, quando poderias ser tudo? Por que insistes dizendo sim, quando tua vida implora que digas um não urgentemente? Dizes um não já, caso contrário não sei o que será de ti. Cria coragem, meu amigo, senão tua covardia e omissão vão dar-te suas crias mais características e nefandas: o fracasso e a perda do respeito por parte de quem to deve. Não te iludas com a lista de teu patrimônio, que ela de nada serve a te fazer um homem. De fato, ela não durará muito se não fizeres por merecê-la. A contrapartida material deve necessariamente traduzir quem és, ou terá sido apenas uma ordem passageira das coisas.
          O que será daqueles que trouxeste ao mundo, se não te mostrares homem? O homem decide, não espera que por ele decidam. O homem escolhe, não espera que por ele escolham. O homem eventualmente diz sim, mas na maioria das vezes a vida lhe obriga a dizer não. De que adianta ter bom coração se não souber ser justo? O homem que sempre diz sim, assim como tu fazes, comete inúmeras injustiças e freqüentemente se mostra fraco e vulnerável. Assim como tens sido. O homem deve dizer não porque a vida está sempre a lhe dizer não. O homem deve, portanto, dizer não ao não que a vida lhe diz. Só assim poderá vencer na vida – ser verdadeiramente um homem.
           Se dizes sim, estás a permitir que a vida te faça tudo. Não te permitas esse fracasso. O homem não imputa a outrem as conseqüências de suas atitudes, de suas decisões. Deves assumir de imediato o teu caráter de homem, que deixaste adormecer não se sabe onde. Se o perder, que será de ti? Ou não serás tu aquele que pensei ser? Disso me recuso duvidar. Sei de fato quem és. O que poderá ter-te desviado?
           Um vício, uma mulher, ou ambos, eis a resposta. Pior para ti, porque quando se entra na seara do irracional, o homem deixa definitivamente de ser homem para tornar-se bicho. E aí, ai de ti, meu caro amigo: a vergonha que sinto será pouca ante o inferno que te aguarda.

06..11.2009