segunda-feira, 26 de maio de 2014

Quem cala, consente

​          No leito de morte, pede que lhe chamem o genro. A filha era o seu grande apego. Sempre lhe fora muito próxima.
    ​      Há quatro anos fizera uma operação que, julgava, havia lhe curado. Meses atrás descobrira sua tragédia: – a doença era maligna e se apresentava novamente de forma agressiva e sem possibilidades de cura. Tão logo soube da triste notícia, a filha correu a engravidar: - o pai ainda não tinha o neto que tanto desejava. Agora, o garoto já contava cinco meses. Podia morrer tranqüilo, feito avô. Contudo, ainda precisava conversar com o genro, pedir pela mulher e a filha, suas grandes paixões na vida.
    ​      O mancebo se achegou à beira do leito, na presença da mulher e da sogra, e ouviu do sogro o pedido para cumprimento póstumo: – que cuidasse sempre, e para sempre, da mulher e da filha amada. O filho homem era jovem, sem responsabilidades, e se arranjaria. Não nutria preocupações a seu respeito. Coração de homem é empedernido. Esqueceria o pai em breve. O problema era a filha e a mulher amadas no fundo da alma. Era para elas protetor e solo firme. O genro, que também lhe era caro, era a pessoa mais apropriada para a missão, qual seja, não permitiria que algo lhes faltasse, e lhes consolaria após a partida precoce. Deixar-lhes-ia boa renda e patrimônio. O genro era de confiança. Morreria em paz.
O genro prometeu solenemente honrar-lhe o pedido. Não se nega uma vontade moribunda.
    ​       Exaurindo-se-lhe as forças vitais, descansou. Consternação de praxe seguiu-se. A morte é sempre mal-vinda. Não se a quer por perto, muito menos chegada. Contudo, nela tudo se resolve. O morto é imune a tudo. Nada leva, tudo deixa. Aos credores lhes interessa o espólio, aos devedores o esquecimento. Ao morto nada importa. Nada lhe é útil. Ensinamentos nunca aprendidos pelos que ficam ainda um pouco, muito pouco. Tanto que, após um lapso de tempo, voltam a viver como antes. A vida continua.
    ​       Eis que, algum tempo depois, no aniversário de morte do sogro, o genro pede à sogra e à mulher que vistam o melhor de seu guarda-roupa, que comprem um lindo e exuberante buquê para uma visita que fariam, os três, ao túmulo do falecido. Mãe e filha, do fundo de sua inconsolável a ainda latejante dor, exultaram com a bela atitude do genro, que demonstrava zelo e contrição solidária.
          Lá chegando, de mãos dadas fizeram orações. A viúva e a órfã falavam ao morto como se ele as estivesse ouvindo. A filha, com os olhos banhados em lágrimas, confessava o amor especial com que amava o pai; a viúva falava das saudades que sentia. O genro, de cabeça baixa, assistia à cena comovido. Depositaram-se as flores na laje e acenderam-se velas. Mais uma vez fizeram orações. Após as despedidas das mulheres, o genro interveio e pediu que esperassem, pois tinha um comunicado a fazer ao querido sogro.
    ​      -"Seu Fulano" – iniciou ele – "vim aqui especialmente para lhe fazer um pedido especial, visto que o tempo urge". 
           As mulheres se entreolharam surpresas. Alguns segundos pairaram no ar e houve um breve suspense. 
           -"Vim encarecidamente lhe pedir que me desobrigue do compromisso, antes firmado com o senhor, de cuidar de vossa mulher e de vossa filha, visto que dela estou me separando e não mais terei condições de cumprir o que lhe havia prometido. Espero que o senhor compreenda etc. etc. etc."
    ​      Ouvindo aquilo, a viúva sentiu uma sensação de desfalecimento iminente e se acocorou para não cair. Nauseada, segurava-se ao chão. O mundo parecia girar. O genro correu a segurá-la pelo braço, mas ela, empurrando-o com um safanão, vociferou:
    ​      -"Tire suas mãos de mim."
          ​A filha, que desde o princípio suspeitava das intenções do marido, não se surpreendeu. Ficou, porém, chocada com a forma que o marido escolheu para anunciar à mãe e ao pai morto a decisão que, sabia ela, ele já tomara. Passado o momento, a viúva entrou num estado de grave depressão. O filho caçula não fazia idéia do que se passava e só entendeu tudo quando a levou ao analista. Teve ímpetos de dar tiro no cunhado e tudo, mas a irmã o demoveu da idéia.
    ​      Hoje, passados já alguns anos, o ex-casal já tem novo par e estão felizes. A viúva nunca se recuperou plenamente do choque. O cunhado ri da história quando se lembra. O defunto permanece em silêncio. Afinal, quem cala, consente.

Fernando Cavalcanti, 30.08.2008