sexta-feira, 30 de maio de 2014

Com lisa, não!

        Sentada à mesa entre amigos, após um sôfrego gole de uísque, fuzilou: -“Com homem liso não caso!”
        Entre os presentes fez-se um desses silêncios quase intermináveis, ao fim do qual completou: -“Homem liso nem pra namorar!”
        Pairou no ar a dúvida dilacerante. Ninguém sabe ao certo quem se enquadra como liso para uma mulher. Ainda mais aquela. Era bonita, corpo escultural e firme, pele suave e viçosa, já deixando transparecer, porém, os sinais de algum tempo. E tinha diploma. Com esses predicados, era bem fácil o alijamento de toda uma China. Em terra de cego quem tem olho é rei, está aí o ditado que não me deixa mentir.  
         Era óbvio que aquilo fora coisa aprendida. A mãe não seria a professora. Não faz trinta anos e a mulher ainda servia ao homem. Pouco mudara logo após os esperneios da Betty Friedan. Era coisa da modernidade, sem dúvida. Ela vivia ao tempo da transição e, todos sabem, toda transição faz suas inevitáveis vítimas. Não é fácil perceber que se traz à algibeira uma tralha inútil. Os tempos mudam e, por mais que isso pareça evidente, há sempre quem não perceba.
         Pensando melhor, havia de ser o arrependimento. Sim, há nostalgias abissais embrulhadas no arrependimento. Seria o caso, talvez. Expliquemos.
         O caso é que a mulher quis ser tudo, ser igual ao homem, se comportar como homem, fazer tudo que faz o homem. Lembro em criança do receio que se tinha de que viessem a querer urinar em pé. Engenheiros se reuniram a projetar um urinol apropriado. De fato, ainda hoje o buscam em sua imaginação criativa. Para nossa felicidade e alívio, não conseguiram, e é provável que assim permaneça.
         A mulher quis trabalhar fora, ser chefe, dirigir carro, ganhar dinheiro, presidir, governar, adulterar em público, e gozar, coisas que até então só ao homem era permitido. No começo era um estardalhaço tremendo. Depois a coisa foi indo, foi indo, foi indo e... Eis aí a mulher a fazer tudo e de tudo. Parece o homem. Conseguiu o salvo-conduto para tudo fazer, como o homem.
        O homem era o provedor, o mantenedor, o guerreiro que matava um leão por dia para sustentar a família. E o fazia com uma braveza de Alexandre e um orgulho enternecedor. A mulher não podia nem falar em trabalhar. Era capaz de levar uma coça por essas idéias malucas. Onde já se viu? Foi quando veio a doida da Betty e suas comparsas. Escreveram livros, fizeram barricadas, greve de sexo, o diabo. O resultado foi a mulher moderna, dessas que até diploma tem. A coisa está tão avançada que já governam países e pilotam aviões. Vi algumas dirigindo táxi, e outras guiando lotação. Nas forças armadas hoje abundam. Na polícia peitam – literalmente! – bandidos e desordeiros. Falam grosso - não sei como! – em tribunais como juízas. A mulher moderna chegou para ficar.
          Eis, então, que me aparece uma dessas, nostálgica da era da anulação. Em que pese o honroso diploma, não quer trabalhar, não quer homem liso. E baixa o decreto com murro na mesa e uísque bebido a gute-gute. Não quer, e pronto! Quer herdar da Betty Friedan somente as barricadas e as greves de xoxota. E quer de volta a dependência para pagar as contas. Não quer homem liso!
          O homem, por sua vez, depois das taxistas, das capitãs, das juízas, das primeiras-ministras, das candidatas a presidente, das motoristas de lotação, e da Marta artilheira, considerou a mulher moderna uma maravilha. Quer a sua irremediável preservação. A princípio queria trucidar as revoltosas, causa pioneira das punhetas de maridos. Depois, contudo, só viu vantagens na moderníssima mulher que pilota aviões e foguetes, e até apita partida de futebol.
          Conclusão: hoje em dia também eles não querem mulher lisa. Falam que dá uma despesa danada. E não adianta fazer greve, dizem. A mais antiga das profissões pode prover do bom e do melhor. E bradam: -“Viva a mulher moderna!”

22.10.2009