terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Serão chifres?

            No próximo fim de semana vou a Sobral.
            Todos sabem como adoro Sobral. Tenho muitos bons amigos em Sobral e de Sobral. Os de Sobral são muitíssimo mais numerosos. Há uma explicação: – saíram muito cedo de lá. Migraram. Como diz meu querido amigo Olimar, outro rebento da Princesa do Norte, a diáspora sobralense só perde para a dos judeus. Assim, é mais fácil que se tenham amigos de Sobral do que em Sobral. Não sei se me entendem.
            Não me recorda a última vez que lá estive. Acho que foi de passagem. Nem entrei na cidade. Ao abrir a porta entrou pelo ônibus como que uma baforada quente e seca. Saí a me aliviar da sede e da bexiga cheia. A bodega era grande e a sombra convidativa, embora deva dizer que dentro do coletivo o ar climatizado era o que havia de melhor. Em vez anterior a esta, até comida oriental descobri na cidade. Era em restaurante de um amigo, às margens do Acaraú. À noite descobri que o clima é mais ameno, inda mais à beira do rio.
            Não me perguntem a que vou a Sobral. Digamos, de forma bastante ambígua, que vou a “negócios”. Todos são muito curiosos sobre a vida alheia e devo dizer que muitas vezes alguns sabem mais de nossa vida do que nós mesmos. Assim, convém sempre dificultar aos outros o acesso a informação que é particular. Não se trata de segredo de estado, mas ainda assim o sigilo se impõe.
Outro dia, ontem acho, recebi de uma amiga, no telefone portátil, mensagens intrigantes. Seu conteúdo e teor primam pelo mistério que encerram. Ainda agora estou a tentar falar com outra amiga que mora na América do Norte a fim de que veja o que pode fazer por mim, pôr o FBI ou a CIA no caso, se possível. Esqueci até o nosso órgão correspondente de inteligência, a ABIN, porque seguramente este é um caso que está além de sua capacidade de resolução. Sei que pode parecer que exagero, mas agora mesmo fui reler as missivas e dirimi todas as dúvidas: não entendi bulhufas. Suas afirmações são tão repletas de enigmas que para mim se mostram indecifráveis.
Assim, concluí que há algo que ela sabe sobre mim que nem mesmo eu sei, o que comprova o que disse linhas atrás. Talvez ela esteja tentando me dizer que não vá a Sobral por alguma razão que me escapa. Creio até que ela não sabia que iria viajar. Ou talvez soubesse. Talvez soubesse antes de mim. Repito - algumas pessoas sabem mais sobre você do que você mesmo. O mais engraçado de tudo é que, ainda que saiba o que eu não sei, percebo sua intenção cruel de deixar a coisa assim mesmo, para que eu continue sem saber.
A minha dúvida é se chove em Sobral como chove aqui e, em chovendo, o que as águas de Sobral fazem à cidade. No ano passado o rio encheu e alagou parte dela. Nada mais natural – o rio corta a cidade. Dizendo melhor, a cidade cresceu atrelada ao rio. O rio está lá desde que o mundo é mundo. Assim, a cidade é o intruso.
Se lá chove como chove aqui é o caso de se pensar se a empreitada do fim de semana é segura. Fico a imaginar que minha amiga tem alguma informação secretíssima da Funceme e teme repassá-la a mim, sob pena de ser descoberta e de alguma forma punida. Por isso faz terror. Quer me assustar. Quem sabe um furacão se dirige a Sobral e os sádicos da Funceme estão tratando o caso como segredo de estado?
O que quer que seja, em breve o que se esconde revelar-se-á, e então todos saberão. Isso se ainda também já sabem. Já começo a achar que levei chifres e, como todo traído do mundo, serei o último a saber. Se for esse o caso, estou na fase da vida em que o que mais se deseja é chifres. Eles são a justificativa para outras e novas aventuras.    
Como diria o Amorim, se for o caso, que venham de lá os córneos.

Fernando Cavalcanti, 15.02.2011