sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Zé - a partida


O médico dissera que Zé viveria seis meses, na melhor das hipóteses.
         Eis como foi: Zé viveu menos de quinze dias após a sentença. Partiu dois dias depois da visita que relatei. Concluí que o pedantismo dos médicos só não é maior do que sua estupidez.
           Tendo partido o meu amigo, irmão do Chico, fomos encher a cara. Muitos foram encher a cara. Nada mais apropriado a se fazer após as exéquias de alguém que se ama – encher a cara, mandar o chefe esperar, riscar compromissos da agenda. Quando parte para o além alguém que se ama, até o brilho do sol chega a parecer estúpido. E de fato era uma tarde ensolarada quando se inumou o Zé. Seria uma linda tarde, não fosse a tristeza descomunal que nos assolava.
         Nesses momentos a vida é um átimo. Nada faz sentido. Tudo é ilusão. A inexorabilidade dos elementos eternos e a inexorabilidade do fim da alma vivente que vive se encontram, e o que se sente é uma colossal humilhação. Encher a cara anestesia. Até o pranto converte-se em gozo inexplicável. Qualquer coisa que se diga é grosseiro, insuportável. Os silêncios falam mais alto; os olhares mais ternos e as lágrimas são o verdadeiro bálsamo. Suspende-se a vida, e já nem se sabe ainda se será possível continuar.
Nos dias que se seguem as lembranças nos distanciam ainda mais do que se foi. A certeza do reencontro impossível frustra a nossa pequenez, e só um pensamento alivia: em breve também já não seremos. Pensar na eternidade pessoal ao mesmo tempo em que se tem a certeza do fim do ser amado provoca a dor excruciante. A proximidade da própria morte tem efeito oposto. Precisamos também ter fim para que o outro, o que partiu, não se torne definitivamente uma dúvida. Tudo o que aconteceu há muito tempo é uma dúvida. O tempo é um fogo que consome sem queimar.
É isso o que nos aumenta a dor da morte do ser amado: a perspectiva da eternidade de sua morte. Não nos importa que não se viva eternamente, mas é lancinante que se morra para sempre. Daí a dor de se perder o jovem que morre. Fica-se na dúvida entre o desejo próprio de vida longa e o anseio ante a dor e a dúvida que virão irremediavelmente se instalar.
Vai, Zé. Adeus, amigo. Nunca se despede de alguém para sempre. Mesmo quando me disseram que irias, não sabia que seria assim, tão súbita e inesperadamente. Nunca se vai ao além quando se quer, e mesmo os que vão não querem que se saiba que vão. Foste sem querer, querendo ficar no seio dos teus. Agora já não é possível. Tantas e tantas palavras não foram ditas e, mesmo que fossem, quem se despede para não mais voltar?

Fernando Cavalcanti, 11.01.2006