quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Nossa desejada guerra

Estão os governadores do nordeste a posicionar-se a favor da cobrança do imposto para a saúde. Se assim se posicionam é porque, nas suas contas, não têm tido, ao longo de seus mandatos, dinheiro em caixa para custear as despesas com saúde.
            Para mim, que sou um só, tal problema é uma barbada, galho fraco, uma bobagem. Que faço? Ora, a vida é minha, a saúde é minha, quero viver mais e melhor, faço o que está ao meu alcance para me manter sadio. Não quero adoecer. Adoecer sai mais caro, muito mais. É óbvio que não depende só de mim não adoecer. Há a genética, os acidentes, os imprevistos.
Mesmo aos acidentes posso minimizar suas probabilidades. Não fumo, faço exercícios, fico longe do estresse, me alimento com frutas, verduras, legumes; como pouca carne, bastante peixe e frango; só ingiro alimentos com pouca gordura; controlo o sal, o sol, rio até de piada sem graça, não me apoquento com os problemas de controle indireto e com os de controle inexistente. Quando sofro, se for dor eu grito; se for tristeza eu choro; se for doença eu gemo. Ora, bolas. Faço o que posso. Até agora tem funcionado.
Pago o plano de saúde, para o caso de precisar. Acaba que sempre se precisa. É questão de tempo. Todos ficarão doentes. Os que não ficam morrem subitamente ou morrem dormindo de tão velhinhos, como a Raquel de Queiroz. Não dão trabalho a ninguém, que bonitinhos e fofinhos! Os outros passam pelo processo de morrer. Começam a morrer anos antes e acabam por morrer como o final, o clímax da degeneração progressiva e inexorável.
Mas, e os governadores do nordeste? Deixemos esses excelsos senhores de lado por enquanto.
Não sei se viram a entrevista que fez o Michael Moore com o senhor Tony Benn, lendária figura da política britânica. Para o caso de não terem visto, estou disponibilizando-a aos leitores. É desconcertante o que se vê e ouve. O senhor Moore também entrevista um médico de família inglês, o equivalente ao médico do nosso Programa de Saúde da Família. Não farei nenhum comentário sobre o que diz o senhor Benn, já que toda a reportagem é um universo de deixas para se comentar e refletir e, no caso dos brasileiros, se envergonhar. Direi, contudo, que a diferença colossal e intransponível e que salta aos olhos entre o político e o povo britânico e o político e o povo brasileiro é a guerra.
O povo britânico participou, todo ele - cada homem, mulher, idoso e criança - da Batalha da Grã-Bretanha durante a Segunda Grande Guerra, por exemplo. Durante cerca de oito meses mais de 42 mil civis perderam a vida, e suas cidades foram impiedosamente bombardeadas pelos alemães. Não se está falando dos soldados britânicos que lutaram mundo afora defendendo a causa da liberdade durante todo o conflito. “O total de mortos e desaparecidos em combate, presumivelmente mortos, nas forças armadas britânicas, correspondeu a 303.240 homens, aos quais é preciso acrescentar mais de 109.000 dos Domínios, da Índia e das Colônias, num total de 412.240. Esse número não inclui 60.500 civis mortos nos bombardeios aéreos no Reino Unido, nem as baixas de nossa Marinha mercante e de nossos pescadores, que corresponderam a cerca de 30.000.” (Memórias da Segunda Guerra Mundial, W. S. Churchill, 1959)
A guerra feroz, mortal, que faz sofrer, que faz gemer, que faz gritar, que faz chorar e faz também se desejar ardentemente não somente a paz entre as nações, mas também a paz social, a paz na nação, entre os concidadãos, que se acham agora firmemente unidos por laços fortes do espírito de corpo que só se criam quando se luta e se morre junto – essa nos falta; a guerra que ameaça a sobrevivência da própria pátria e que leva ao campo de batalha até o filho do rei, o príncipe – essa nos falta. O que parece é que o destino não nos reservou as tão decantadas e inexistentes glórias de nosso hino.
Vamos à entrevista com o médico britânico. Ela revelou o segredo do resultado de estudos recentes que demonstram que os britânicos entre 55 e 65 têm uma saúde muito melhor do que os norte-americanos de mesma faixa etária. Para todas as doenças que foram analisadas os americanos as tinham mais que os ingleses. Mesmo os mais pobres britânicos têm a saúde melhor e vivem mais que os mais ricos estadunidenses. Câncer, diabetes, hipertensão,doenças cardíacas e doenças pulmonares são todas mais comuns entre os americanos comparados aos britânicos.
É o seguinte. Primeiro, todos os britânicos têm acesso ao seu sistema de saúde. Sabem que o sistema é financiado com o dinheiro dos impostos que pagam e que, portanto, não é gratuito. Segundo, o sistema está funcionando desde 1948 e ninguém jamais ousou modificá-lo para pior. Terceiro, os médicos ganham mais quando conseguem influenciar seus pacientes a serem diligentes com o controle de fatores de risco como diabetes, hipertensão e hiperlipidemias. Por exemplo, se o médico consegue que seu paciente abandone o hábito de fumar, ganha mais. É uma espécie de produtividade por resultados obtidos. Faz sentido. Pagar mais e melhor ao médico sai mais barato do que tratar as complicações devastadoras dos fatores de risco.
http://m.youtube.com/watch?v=A-2h0o3uZ-8
Da reportagem fica uma constatação constrangedora e vergonhosa: - nosso sistema de saúde público ou privado é, na verdade, a indústria da doença. E os governadores querem mais dinheiro nosso para mantê-lo funcionando a todo vapor. Como diz o senhor Benn, um povo doente, inculto e sem confiança é fácil de governar. Na outra ponta de nosso podre sistema estão a indústria farmacêutica, as farmácias, a grande indústria de material médico-hospitalar e a indústria dos sofisticados meios de diagnóstico, com seus novos e fantásticos aparelhos que só faltam falar, mas que na verdade desviam para longe um do outro o paciente e seu médico. E não se podem esquecer os empreiteiros, nossos velhos conhecidos empreiteiros, que constroem hospitais públicos caríssimos os quais às vezes nem chegam a concluir. Para isso querem mais dinheiro nossos sérios, compenetrados e comprometidos governadores.