quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O sumiço do Padilha

Não é à toa que o Padilha gosta de novelas. Não se trata exatamente da novela, ou de seu tema, ou de seu elenco. Todos sabem que elenco de novela, hoje em dia, é selecionado não pelo talento na arte de representar, mas tem a ver com as bundas e corpos esguios dos figurantes. Sim, hoje novela não tem ator ou atriz, tem figurante.
Imaginem, então, que o Padilha adora as novelas. E adora as personalidades que noutro tempo, aí sim, seriam figurantes nas novelas. Por exemplo, chamam o Roberto Shinyashiki e o põem na novela para ele funcionar como conselheiro empresarial de algum figurante que faça o papel de um grande empresário. O Padilha, então, ovaciona o Shinyashiki e sua atuação na novela. Mais ainda. Anota cada intervenção do homem e passa a adotá-la e propalá-la aos quatro ventos. Se convidam um espírita o Padilha, que é dado aos espíritos, fica louco; vê a novela do primeiro ao último capítulo. E o que disser o espírita nos capítulos da novela, dirá o Padilha nas rodas e festas entre amigos. Eis aí as razões que levam meu amigo a ser um fã de carteirinha das novelas, certo?
Errado. Descobri recentemente que estava redondamente enganado. O Padilha gosta mesmo é da televisão onde assiste à novela. Deixem-me explicar. A televisão de que falo aqui é o aparelho de televisão. Hoje não há mais televisão. Hoje é o LCD e a “televisão” de plasma. A de plasma se chama ainda assim porque não se achou ainda um nome apropriado para se lhe dar. E é exatamente isso que ama o Padilha: o equipamento. Por isso estou há tempos sem vê-lo. Ou melhor, foi por isso e não foi.
O caso é que o Padilha comprou o que há de última geração em equipamento televisivo. Não sei há quanto tempo, mas estou sabendo que o homem comprou um equipamento desses que a gente fica em casa só babando de olhar para ele. Assistir novela é uma coisa; assistir novela no novo equipamento do Padilha é outra.
Liguei outro dia para me aconselhar com o amigo e o que ouvi? Ouvi-o me perguntar de meu LCD que comprei recentemente. Queria saber das especificações, do design, da série, da marca, etc. etc. etc., e comparava cada detalhe com o que ele também comprara e ainda nem recebera. Que fiz? Mandei-o às favas. Justificou-se: – “Sou um apaixonado por tecnologia!” Imaginei: “está com um parafuso a menos.” E desliguei o telefone frustradíssimo por não ter conseguido conversar com o amigo como dois humanos normais. Sei que dizem que de perto ninguém é normal, mas há seguramente um exagero nesta suposta constatação. Há gente normal. Óbvio que há anormais que acham os normais anormais. É precisamente isto o que acontece.
Vejamos a tara de meu amigo por tecnologia. Primeiro, o homem não sai de casa para ficar a se deleitar com seu equipamento século XXII. Todos temos algo de criança a pulsar dentro de si. Normal seria que, acabado o encanto inicial com o “brinquedo”, o homem dele enjoasse e o incluísse e deixasse na lista das coisas comuns de seu dia a dia. Mas não. O que faz ele? Já vos relatei. Segundo, apreciar novelas não vem bem a calhar para um indivíduo do sexo masculino maduro, quase podre. Há algo de errado aí. Terceiro, comparar seus brinquedos com os dos amigos é comportar-se igual aos meninos do jardim de infância.
Fechemos o diagnóstico. O Padilha sofre da síndrome de Peter Pan e é sério candidato ao transtorno da ansiedade social ou fobia social. E nem falemos da possibilidade de que o amigo sofra de algum distúrbio do comportamento sexual. Abandonemos a análise por aqui que não quero perder o amigo, mas que a verdade deve ser dita, isso deve.
            Padilha, larga a maravilha tecnológica que os amigos de carne e osso querem te ver!
   
Fernando Cavalcanti, 09.02.2011