quinta-feira, 31 de março de 2011

Uma dor que se achega

Deu-me a impressão de ter avistado o Casoba na arquibancada do Castelão. O gol da vitória do Ceará veio ao meu conhecimento justamente quando fui ao toillete verter água. Ouvi um barulho surdo, oprimido, mas que denunciava a multidão gritando engasgada. Voltei ao telão de casa e vi – seria o Casoba? Ora, era uma multidão, um mar de gente a pular e a agitar flâmulas, e bandeiras, e camisas. Estaria o Casoba ali, agitando e enfunando um daqueles panos preto e branco?
            Jurei que – sim! – era o Casoba. Afinal, o homem é Ceará doente. Restou-lhe na vida, talvez, uma única paixão extra-familiar – pelo time alvinegro do estado, onde se ajunta a maioria das gentes. As outras ele esqueceu, subtraiu-as, sufocou-as, abstraiu-as. Lançou-as sabe-se lá onde, ao fundo da memória talvez, ou ao além do esquecimento, quem sabe? Outra seria a literatura intimista, que o arrebata ao zênite de seu espírito superior e sensível. No mais, nada... a nós que o amamos, nada...
            Casoba, me viste chorar, não sei se lembras. Um choro à toa, paixão à toa, que a vida me enviou para um teste, uma prova. Chorei, e daí? Eras o meu mais íntimo amigo, como um irmão que nunca tive. E agora estás aí, na arquibancada do Castelão se esgoelando pelo Ceará.
            Não digais que me enciúmo.
           Espero que estejas feliz com o Ceará, o time de futebol vitorioso. Apenas lembro ao amigo que não o esqueci, e que jamais o esquecerei.
            Mudando de assunto, vês o que causou a morte do Alencar? Uma onda de admiração e sisudez social. Levaram o homem à posição de mártir. Tudo porque se permitiu se submeter a tudo, a todos os recursos que outros não dispõem para lutar pela vida. Procrastinou a própria morte para gerar essa comoção inusitada. Diria até que espetacularizou o próprio destino, a própria sina. Para quê? Por quê? (Vê que converso contigo como se morto fosse, já que não haverá resposta, como não há de fato quando se conversa com gente morta. Hás de lembrar a do Pessoa: “morrer é apenas não ser visto.”)
            A morte do Alencar está – o homem ainda nem esfriou o corpo – a excitar crenças, e credos, e partidos, e ambições. Mesmo uma morte pode resultar em dividendos de toda sorte, particularmente nesta terra afeita aos credos mais rudimentares e primitivos. Ainda que em vida – mas já ferido de morte pela doença que o ceifou – tenha aviltado uma filha e a mãe que a gerou, Alencar é agora, neste momento e até a cremação de seu despojo, uma figura de importância capital. Afinal, qual defunto não é canalha? Qual defunto não é candidato a santo?
            Troquemos novamente o rumo da prosa, e o faço somente para voltar ao Ceará, teu time de coração. Estás de parabéns, com certeza. De virada o Ceará mandou de volta o Brasiliense, um feito digno de nota e elogio. Paro por aqui para que os que crêem que detesto futebol não me interpretem mal. Minha paixão por futebol é coisa de cinco minutos, não mais, de modo que minha intolerância com o esporte é o tom do tema. Não há que se admirar um esporte que permite o empate. De todos os esportes, somente o futebol permite o empate. Por isso o futebol vem bem ao brasileiro: empatemos a safadeza com a competência e – zás! – eis aí o brasileiro.
            Ora, que diabos! Estou aqui a devanear sem rumo, uma prosa futebolística, outra do defunto famoso... Que procuro? Que quero? Confesso: uma esterilidade de inspiração me abateu. Temo por deixar escapar uma pieguice, uma tolice qualquer. Policio-me há dias, durante os quais quis dizer tanto e tão pouco consegui reunir. Mesmo aos que me provocam me faço de arredio, numa aridez de três desertos, como diria o Nelson. Ponho à pena essas breves reflexões apenas para tentar me redimir das faltas que porventura cometi contigo, meu caro amigo. Que faço?
            Espero.