terça-feira, 3 de maio de 2011

Dia de cão

Não sei se acontece com outros blogueiros, mas descobri o inusitado – sou lido em terras distantes, overseas, depois de onde o vento faz a curva e, diria até, em Bagdá e para lá de Bagdá. Senão vejamos: Estados Unidos, Canadá, Holanda, Alemanha, Hungria, Espanha, Portugal, França, Suíça, Ucrânia, Moçambique, Irã e Vietnã, em todos esses países tenho leitores. É verdade que tenho amigos em alguns deles, mas não na maioria. Serão brasileiros vivendo longe do solo pátrio.
            Vejam como é o mundo globalizado. Estamos aqui e estamos ali. Mataram o Bin Laden e parece que foi dentro de nossa casa. Os tiros de Realengo provocam pesadelos na Groenlândia. Os tsunamis e tremores japoneses sacodem nossos varais e enlameiam nossas praias. Assim é hoje em dia. Dizia ontem o Leonardo Boff, em sua coluna em jornal local, que a globalização trouxe efeitos colaterais inesperados, dentre os quais os sofrimentos de além-mar, notadamente os da esfera político-ideológica. Está certíssimo o senhor Boff.
            Cá estou a cruzar mais de um oceano com essas parcas letras de meu rosário catártico. Conto fatos do dia a dia dos outros e de meus próprios. Falo das angústias gerais e particulares, dos sonhos comunitários e solitários, das impressões da vida na única alma que conheço, a minha própria. E – aplausos! – quantos dirão que não conhecem a si mesmos! Sou digno de uma consulta psicológica. Ou de uma consulta parapsicológica. Tenho alguns amigos que me aconselhariam a primeira, ao passo que tenho outros amigos que me cogitariam a segunda. Eu sigo na firme convicção de que nem uma nem outra me servem de nada.
            Ontem foi um dia singular. A cidade parecia um completo caos. Fui de um hospital a outro colhendo as tragédias da saúde local. Em um deles o incêndio da noite anterior fizera uma certeza – o caos estabelecido. Para completar, logo ao início daquela manhã ouviu-se um estouro como o de uma bomba lá mesmo, no hospital do incêndio. Eu estava na máquina do banco quando aconteceu. Apagaram-se todas as luzes e as pessoas que estavam naquele pavimento saíram apressadas para a rua, e quase se instala o pânico. Cinco segundos depois o gerador entrou e restabeleceu a iluminação mínima. O centro cirúrgico fora interditado e todas as operações programadas para o dia haviam sido canceladas.
            As chuvas, que se prolongavam desde a noite anterior, contribuíram para deixar o trânsito confuso e travado. Um carro-forte atropelou dois motociclistas e instalou-se no entorno do local do acidente uma operação de guerra. Carros e motociclistas da polícia bloquearam as ruas e desviaram o tráfego. A preocupação era com o conteúdo do carro-forte. Perguntava-se: -“Foi assalto? Foi assalto?” Ninguém quis saber da saúde dos acidentados, se haviam morrido, se muito se machucaram. Queriam saber do dinheiro. Nenhuma ambulância no local, muitos policiais armados até os dentes.
            No outro hospital, cuja emergência invade o seu belo hall de entrada, os cirurgiões de plantão tiveram de dar conta de uma carga extra de serviço. Receberam o cidadão que fora vítima de um traumatismo abdominal fechado e o operaram imediatamente para lhe estancar uma hemorragia exsangüinante. O hospital do incêndio, que seria o hospital mais adequado para este paciente, estava com o centro cirúrgico fechado justamente por conta do fogo que quase o consome junto com os doentes.
            Quando chego ao centro cirúrgico do segundo hospital, o controlista do vestuário me avisa: -“Faltam propés temporariamente, mas pode entrar assim mesmo.” Os propés são uma proteção do centro cirúrgico contra os calçados que vêm de fora. São usados para manter o lugar o mais limpo possível. Então, temporariamente o ambiente se tornou mais propício à transmissão de infecções aos pacientes lá operados. Mas só temporariamente. Se deles podemos prescindir temporariamente, das duas uma: ou eles não contribuem para combater infecções, ou contribuem e nós temporariamente acordamos em quebrar uma regra básica de segurança. Se em nada contribuem, por que continuamos a usá-los? Para gastar mais dinheiro?
            A minha sorte é que o almoço da Zena estava uma delícia. Tive de voltar ao hospital do incêndio, que é próximo do restaurante, para avaliar um paciente que chegara à enfermaria. Cheguei à casa às duas da tarde com dó dos que permaneceram nas ruas o resto do dia.