terça-feira, 3 de maio de 2011

Sem jeito que dê jeito

Há o dinheiro da festa, soube ontem. Conversando com dois amigos, prefeitos de cidades do interior, soube que há uma verba – ou vinda do ministério da cultura, ou vinda do ministério do turismo, não me recordo agora – destinada à realização das festas. Então, os rega-bofes promovidos pela prefeitura municipal de Fortaleza estão dentro da moralidade financeira.
            Explicaram-me, também, que o prefeito está impedido de dispor dessa verba, assim como de verba alocada a seu próprio propósito, para qualquer outra finalidade que não à que ela se destina. Assim, a prefeitura de Fortaleza não pode “desviar” a verba das festas a outra necessidade que não as festas. Segundo eles, a verba estaria disponível para esse fim. O prefeito a usa ou não, ponto final.
            Disseram-me mais, que o dinheiro para a saúde é pouco, mal dá para cobrir as despesas correntes básicas com a pasta; que os senhores governadores às vezes não a repassam; que mesmo o governo federal às vezes “segura” a verba da saúde; que a figura que mais caracterizaria um prefeito de cidade pobre é a de um esmoler; que os municípios ricos, com indústrias e coisas do tipo, nem se valem do dinheiro de Brasília – sua receita grossa vem da parte dos impostos que lhes é destinada pagos por essas empresas.
            Complementaram usando uma comparação com a educação. Os educadores conseguiram, através da criação de uma lei, um fornecimento regular de recursos alocados a partir de vários tributos já existentes. Não se necessitou criar nenhum novo imposto para financiar a educação. Outro detalhe do que disseram meus amigos me chamou a atenção: Brasília fica com 60% dos recursos arrecadados na forma de impostos.
            Sabe-se que Brasília é a cidade das negociatas e antro de corruptos. Lá as três esferas do poder tecem um emaranhado de relações promíscuas, enquanto “administram” essa montanha de dinheiro. Sabe-se também, posto que amplamente divulgado, que o Congresso Nacional é dos mais caros do mundo, se não o mais.
            Segundo um de meus amigos da alcaideria, pesquisa realizada no estado do Paraná, um dos mais ricos e escolarizados do país, descobriu que 40% de seus eleitores venderiam seu voto por dinheiro ou por qualquer tipo de “ajuda” que o político se dispusesse a prestar. Suspeita-se há algum tempo que o povo é canalha, e já o afirmei várias vezes, para o horror de algumas almas puras e menos sensíveis a essa visível realidade. Seria a pesquisa uma confirmação estatística de nossa triste condição? Agora imaginemos nós a união da fome com a vontade de comer, o povo e os políticos que compram votos.
            Tudo isso isenta nossa prefeita das evidências de incompetência? Óbvio que não. O que fica claro e notório é que ela se empenha em demasia a favor das festas, mas despreza, com as fuças mais lisas da paróquia, a questão da saúde em geral e do IJF em particular. Uma sugestão para a urgência que se configura? Ela vá a Brasília arrancar a verba de que a saúde de Fortaleza precisa para funcionar de forma minimamente aceitável. Outra sugestão? Parece que a verba da educação não está na justificativa para a persistente má educação do povo. Há algo errado aí. Seria alguma coisa a ver com o modelo proposto por Watson e Crick, como diria o meu querido e amado amigo Ivan Machado? Se o for, não há jeito que dê jeito.
            O mensageiro de meu prédio acaba de tocar a campainha. Veio me trazer uma encomenda. É o presente de aniversário antecipadamente enviado por minha amada amiga Naná. Tão logo o abro, encho-me de feliz espanto: o volume “Conversas que tive comigo”, de Nelson Mandela, com prefácio de Barack Obama. Na primeira página uma dedicatória: Para Zenani Zanethemba Nomasonto Mandela, sua netinha falecida aos 13 anos em acidente automobilístico ano passado; o compact disc de Stacey Kent intitulado “Raconte-moi...” A faixa inicial é “Les eaux de mars” (Águas de março); e uma miniatura da Torre Eiffel.
            Inté. Vou ao Mandela ao som de Stacey Kent.