quarta-feira, 4 de maio de 2011

Jogo político - uma leitura

Analisemos uma matéria do jornal O Povo de hoje, em meio ao último incêndio do IJF. A propósito, corrijamos – não houve incêndio. O que houve, a despeito da negação de alguns, foi um curto-circuito e possivelmente a queima de fios e seus revestimentos, seguidos de fumaça e apagão.
            Dizia o Casoba que hoje em dia não mais se infarta. Antes do dano ao músculo aborta-se o evento. O que é o evento? Resposta: é o dano ao músculo. Hoje há mais coronárias do que músculos doentes. Estão aí os stents no peito de muitos a comprovar.
            Pois diz o Aurélio sobre incêndio: “fogo de grandes proporções que se propaga destruindo ou danificando tudo que atinge”. Conclusão óbvia, para o desespero dos arautos do já vigente Armagedom: não houve incêndio no IJF. E acrescento, para os mesmos arautos – o curto pode, eventualmente, ser a causa de um incêndio. Digamos, para concluir, que a fiação do hospital são as coronárias, ao passo que todo o resto é o músculo. Estão ruins as coronárias do IJF, o que é uma ameaça constante ao seu músculo. Fica perfeito assim, e bem mais próximo da verdade. Aliás, a maior causa da perda da razão em uma acusação é o acrescentar à verdade uma desnecessária mentira.
            Dito tudo isso, passo à reportagem do O Povo. Título da matéria: “Luizianne volta em 2014?” Tudo começou quando o PT nacional trouxe a público a possibilidade de a excelentíssima prefeita de Fortaleza ser a candidata do partido ao governo do estado em 2014. O Ronivaldo Maia, vereador da base da prefeita, foi logo assumindo que ela é “candidatíssima” posto que “vai terminar bem o mandato, com um nível de aprovação razoável”.
Até há pouco eu pensava cá com meus botões. De uns tempos para cá passei a pensar lá com os botões alheios. Por quê? Porque o eleitor não tem um pingo de juízo. Ora, eu moro no Meireles, sou a elite, os vermelhinhos me detestam. Talvez também o povo me deteste. O que o povo faz quando da eleição? Vende o voto, ora bolas. (Não digam por aí que eu estou a espalhar que a candidata Luizianne Lins ao governo do Ceará vai comprar votos! Vejam lá!)
Na minha impressão e percepção a senhora Luizianne Lins não vai terminar bem o mandato nem tem um nível de aprovação “razoável”, seja lá o que queira dizer esse “razoável”. Mas, como acabo de dizer, essa é a minha impressão. Sei lá do povo! O povo é o povo, não tem cara, não tem carteira de identidade. Diz o Rubem Alves que o homem sozinho é virtuoso, e que quando vira povo, quando faz parte de um grupo, vira gangster. Quem há de eleger a futura candidata é o povo, não sou eu. Daí ser mais prudente analisar a situação pensando lá com os botões do povo.
Em que pese tudo isso, o Ronivaldo afirmou, perguntado sobre a reação da possível candidata à concorrência ao governo, que o assunto ainda não foi com ela debatido. E disparou: -“Acho que ela pensaria duas vezes”... Não sei se ponho aqui um ponto final ou uma exclamação. Optei pelas reticências. A reportagem não põe ponto algum. Põe uma vírgula seguida da palavra “apostou”. Em suma – o vereador aposta que a prefeita pensaria duas vezes antes de se candidatar ao governo. Parece-me haver contradição com o que disse acima. Quando dizemos que alguém vai pensar duas vezes antes de fazer algo é porque estamos certos de que receia fazer, não quer fazer, ou sabe que, se fizer, pode se dar mal. Qual será a razão no caso da prefeita?
O deputado federal José Guimarães, tido como homem de reputação ilibada e, pelo jeito, nada bobo sobre o jogo político, considerou o ventilar o assunto “um desserviço, coisa de quem não tem juízo”. Candidatura lançada muito cedo mostra toda a sua vulnerabilidade, inda mais em se tratando de nossa ilustre prefeita. Parece que o deputado Guimarães concorda comigo quanto à sua impopularidade e talvez quanto à gestão aparentemente desastrosa.
Já o governo Cid, na pessoa de seu irmão e chefe de gabinete Ivo Gomes, concorda comigo quando disse, perguntado sobre a eventual candidatura da prefeita, que tudo não passava de uma retórica do PT nacional para dar força hoje à chefe do executivo municipal, “cuja popularidade está ‘fragilizada’”. Parece que estão tentando ajudar à senhora Luizianne Lins demonstrando-lhe apreço dentro do partido, o mesmo que a abandonou nas eleições há cinco ou seis anos. O partido apoiaria de verdade a sua candidatura ao governo do estado após essa gestão “razoável”? O senhor Ivo Gomes acha que é só um apoio por agora, de mentirinha, para ver se sua popularidade avança.
O diabo é que ele, quando perguntado se ela reuniria condições de governar o estado, respondeu: -“Se ela tiver mais de 30 anos e estiver em dia com a justiça eleitoral...”, e saiu a rir-se. Quero crer que o homem quis dizer que no jogo político tudo é possível, mesmo a senhora Luizianne Lins vir a ser não só a candidata a, mas a primeira governadora do estado do Ceará.
Em política não basta pensar lá com os botões dos outros; deve-se pensar com os botões dos políticos dentro do imenso tabuleiro de seu jogo. Acho que já estou começando a aprender.