domingo, 22 de maio de 2011

No pain, no gain

“Eu nada seria sem as minhas obsessões”, dizia o Nelson. O que ocorre conosco é a obsessão às avessas, a obsessão de nossas mazelas. Nós, como vítimas passivas que não somos, seguimos repletos das conseqüências do que somos.
            Primeiro foram os gringos que viviam a nos explorar. Por mais de trezentos anos nos levaram as riquezas que embelezam seus palácios. Uma nação inteira amofinou culturalmente e cientificamente ante a desnecessidade do trabalho. Servimo-lhe de fonte da riqueza que não se sustenta e – pior! – aprendemos com eles tudo sobre tal atividade. Com eles aprendemos o incesto de, no exercício do poder, aceitar “presentes” dos particulares, como fez o primeiro Imperador da Quinta da Boa Vista quando aceitou do maior traficante de escravos da colônia o próprio castelo imperial.
            Depois, os militares perseguiram nossos comunistas, que queriam nos levar à ditadura do proletariado após aprender sobre matar gente nos confins do mundo e aqui pertinho mesmo, e deram sumiço numa penca de gente inocente, ainda que em nada se locupletassem à frente do poder.
            Em seguida viramos “democracia”, e esta acabou por catapultar nossas piores idéias e nossos piores homens. Por isso Aristóteles a considerava uma forma corrompida de governo. Quando uma sociedade não alcança como um todo o grau de caráter mais elevado, a democracia vem para ratificar as más práticas dos piores caracteres.
            Mazelas não são seres viventes. Mazelas são vícios, defeitos, idéias sabidamente nefastas, o pior do pior. Pois as nossas adquiriram uma “mind of its own”, como diriam os cavalheiros ingleses, nossos mais fieis aliados e protetores do passado. Elas persistem em  nosso meio, se preferem a versão da frase inglesa, ou são o resultado da presença constante dos piores caracteres em todas as esferas do poder.
            O que ocorre no IJF, por exemplo – e aqui vou eu em minha derradeira obsessão – não ocorre no IJF. Não sei se me entendem. O que lá ocorre é o resultado final de nossa “democracia”. Dirá alguém: é o resultado de nossa “frágil” democracia. Pergunto: que diabos significa “frágil democracia”? Respondo: é a democracia do povo mau caráter. Frágil democracia é apenas o eufemismo. De fato, vivemos imersos em eufemismos. Neles dormimos em paz.
            Contrapondo-se à nossa “frágil” democracia está a nossa ditadura branca. Ou somos uma, ou somos a outra, ou somos ambas. Diria que somos ambas. Melhor. Diria que nossa “frágil” democracia insiste em manter nossa branca ditadura, ao passo que esta persiste mantendo aquela. Diante de tal cenário, o que nos resta? Quantos séculos serão necessários para que o cidadão comum jogue o lixo ao cesto apropriado? Direi numa única palavra: até que venha a guerra.
            Deve haver mais de um imbecil que dirá que prego a guerra entre irmãos. Não é o caso, asseguro. Nem mesmo a guerra entre esta nação e outra defendo. Apenas afirmo que, enquanto não vier a guerra que nos imporá o sofrimento geral como nação, não seremos uma nação.
            Se o imbecil quiser, dirá que anseio o terremoto de nove graus, e eu direi que tal abalo que afetasse nossos mais de oito milhões de quilômetros quadrados seria uma hecatombe onde todo o planeta seria afetado, e que assim não nos libertaríamos de nossos males essenciais. Uma tragédia nossa, exclusivamente nossa, se impõe. Também o terremoto exclusivo do Piauí só serviria a nos condoer de nossos já pobres irmãos. Já o de São Paulo nos tornaria, nós e a nossos conterrâneos piauienses, ainda mais pobres posto que a branca ditadura se apressasse a salvar nosso grande centro industrial e financeiro, razão do “empenamento” do país.
            Quem salvaria o Piauí? Direi. Salvariam o Piauí os brasileiros de bom coração, enviando doações para os desabrigados e doentes, bem como os brasileiros de maus bofes em busca de seus dividendos políticos e talvez financeiros.
            Assim, eis a grande e triste verdade: a guerra é nossa única saída. Ainda assim perguntará o imbecil: por que a guerra? E lhe responderei com outra expressão inglesa que tudo resume: “no pain, no gain”. E repito: só nosso sofrimento geral como nação, com os cadáveres de nossos filhos sepultos em cemitério militar, nos levará ao real nível de nação respeitável.
            Daqui de onde estou, longe do país, leio sobre o câncer que o corrói, e chego a pensar, sonhar, que tal mundo só virtualmente existe. Daqui de onde estou me convenço: morrer longe de tudo torna a dor quase inexistente, como um sonho ruim que se tem às vezes.
            Ao regresso tudo será como antes.

Londres, maio de 2011