sábado, 7 de maio de 2011

O brasileiro - vítima e carrasco de si mesmo

Foi com tristeza que li a matéria dando conta da saída do senhor Alex Mont’Alverne do mais elevado posto da secretaria da saúde do município de Fortaleza. Não se deve tripudiar sobre o insucesso de outrem, ainda que seja alguém que consideramos incompetente. De fato, no que se refere àqueles que gerenciam o que é público, devemos sempre torcer por seu sucesso.
Só os que apreciam a autoflagelação se deleitam com o fracasso de um gestor público. Seu fracasso representa o fracasso de todos. O gestor é um administrador. Não será mais o vereador, o deputado, o senador. Ainda que tenha sido um mau político, será também mau gestor? Se mau político, mas técnico competente, tem-se boas possibilidades; se mau político e mau técnico, ou não-técnico, estará a coisa pública entregue aos lobos e em maus lençóis.
O senhor Mont’Alverne é médico. Foi um bom gestor? Não sei. Sei que foi incompetente apenas, e aqui não há tom pejorativo, intenção de denegrir a imagem do homem. Há apenas o reconhecimento de que ele não teve competência para lidar com os graves problemas que enfrenta a saúde de Fortaleza, quaisquer que sejam suas causas. Direi apenas que eu não assumiria este cargo por dinheiro algum. Suas causas são diversas e fora do alcance da influência do gestor. Quem quer que seja ele,o novíssimo gestor, já estará fadado ao fracasso.
Ele atribuiu sua saída a “problemas de saúde”, e teve o cuidado de negar veementemente que tenham sido “desgastes” com o executivo municipal a causa de sua renúncia, embora reconheça que sua administração tenha tido muitos “problemas”.
Sempre se troca o gestor quando o problema se mostra “insolúvel” dentro de sua esfera de atuação. Trocando-se o homem e mantendo-se as causas, não se pode esperar mudanças no cenário. Mas é exatamente isso que se faz. O novo homem – ou mulher – inspira um sentimento geral de esperanças, sempre infundadas. As causas estão lá, permanecem lá, sobre elas nada atua, nada se contrapõe. Como, então, esperar mudanças?
Assim, os “problemas” da administração a que se refere o senhor Mont’Alverne não são de sua administração; são da administração de todo o país. Tudo está assentado em problemas que se iniciam em Brasília, passam pelos governos estaduais, ganham corpo nas várias pastas e vêm estourar ao colo do gestor municipal de saúde. Assim, disse ele que Fortaleza gastou 150 milhões de reais a mais em saúde do que manda a Constituição. O diabo é que a Constituição não previu um caos na educação, na segurança pública, no trânsito, na justiça, na política, etc. etc. etc. A causa do caos na saúde de Fortaleza é o caos no resto. O caos no resto é o mau brasileiro, é a maneira de fazer política do brasileiro, é o mau caráter do brasileiro.
Os gurus ensinam que há que primeiro ser para somente depois ter. O brasileiro quer ter sem ser. O brasileiro quer o dado pelo governo, e o governo quer acabar com a pobreza por decreto. Enquanto for mau caráter, o brasileiro jamais terá de fato. Estão aí a divulgar que o brasileiro agora pode viajar, pode ter carro, pode ter casa, pode ter o que quiser porque o governo ajeitou a economia do país. Pergunto: e daí?
O brasileiro não mudou em nada. Sua essência permanece contaminada pelo espírito individualista, pela mentalidade paternalista, pela visão míope da importância do caráter individual na construção de uma nação, e até pela falta de espírito de corpo, embora viceje o nocivo corporativismo. O brasileiro cultiva o personalismo em troca do institucionalismo, e seu funcionamento social se dá por meio de favores e trocas pessoais. O sistema não funciona porque as instituições não funcionam, mas tudo acontece de uma forma ou de outra. Negociamos tudo, do voto ao terrorista estrangeiro.
O verdadeiro caos é perceber que tudo isso só se amplia, só se alastra e – pior! – as crianças estão imersas nesse “modelo” de funcionamento, nessa maneira de ser, nesse caldo cristalizante que molda o novo indivíduo. Há ainda uma plena e total consciência de tudo. Não mais somos vítimas de uma praga alienante. O discurso que versa sobre nossa ignorância foi por terra, ruiu há tempos. Somos sabedores de tudo. Não há mais “coitados” e pobrezinhos, os antigos puros manipuláveis. Venceu o grande canalha, o canalha-mor das entranhas do brasileiro. Temos agora o que se deixa manipular em pleno gozo de suas faculdades mentais.
Por tudo isso, vamos dar a César o que é de César. O senhor Alex Mont’Alverne foi mais vítima do que carrasco e foi, ao mesmo tempo, mais carrasco do que vítima. Como discernir? Muito fácil. Ele é como todos nós brasileiros – vítimas e carrascos de si mesmos.