sábado, 14 de maio de 2011

O pior mal é o que não existe

Certo ou errado? O que é certo? O que é errado? Depende. Depende de quê? Depende com o que se compara, eis a verdade. Mas, existirá o padrão absoluto, ante o qual são provados todos e todas as coisas? Certamente que sim. Há as coisas Superiores e as outras coisas. Usar padrões e parâmetros menores levará sempre à incompatibilidade com o que é Superior. Por isso cresce e se alastra a noção de que não há o Padrão Superior; porque por ele estamos todos errados.
            Não queremos estar errados. Não nos admitimos errados. Não me sai da memória a história que Dale Carnegie conta no primeiro capítulo de seu livro Como fazer amigos e influenciar pessoas, sobre a caçada ao assassino apelidado “Two Gun” em New York City, em maio de 1931. Two Gun era um assassino brutal e impiedoso. Ele escreveu sobre si mesmo, numa carta endereçada “a quem possa interessar”: -“Debaixo do meu casaco há um coração cansado, mas bondoso – um coração incapaz de fazer mal a qualquer pessoa.” Condenado à cadeira elétrica, ao chegar para sua execução afirmou: -“Isto é o que consegui por matar pessoas?" E justificou-se: -"É o que consegui por defender-me.”
            Da mesma forma, pululam hoje em dia as defesas sem parâmetros e as justificativas mais espantosas e absurdas. Dessa forma, cada um se julga livre e desimpedido de faltas. Diria até que não há mais faltas, não há mais crimes, não há mais moral, não há mais o mal, não há mais o bem. O “bem” e a “moral” são “burgueses”. Não mais existindo nada disso, tudo é permitido, tudo é atenuado, tudo se justifica, e não há que se pensar em punir. Mesmo os chamados “homens de bem” estão a transigir e a negociar com o erro.
“Façamos uma concessão”, dizem; ou “não existiu tal crime”. A justiça encheu-se de brechas e os bandidos – há bandidos? – legislam. Multiplicam-se os fariseus nos fóruns, e vendem-se por dá cá aquela palha. Os poderes de independentes nada têm; trocam-se abertamente em favores de comadres. Seus homens e mulheres confraternizam-se em festas e saraus, quando deveriam se comportar com frugalidade, circunspecção e discrição. Nem de edipiana poderíamos classificar sua relação, posto que na tragédia sofocliana o filho matasse o pai e desposasse a própria mãe sem o saber. O incesto dos poderes é tanto mais vergonhoso quanto mais se percebe o zelo que têm por seu comportamento inadequado e detestável.
Nada mais há de errado, e se não há nada a corrigir, estamos muito bem, obrigado. Só o que é perfeito não muda. Atingimos a perfeição, não há o que mudar. Mesmo os que se dizem profetas do Deus Altíssimo – há Deus? – dominam o povo para seus mais malignos propósitos e acabam por demonstrar às mentes mais “esclarecidas” o Deus que adoram como um Ser de caráter despótico e cruel.
O que pensamos? Pensamos que há, sim, algo errado, mas não conosco. Os sofrimentos pelos quais passamos não são obras nossas, nem conseqüências de nossas más obras. Ademais, se não há o mal absoluto há, pelo menos, o mal temporário. Este, expiável em vidas e vidas e vidas, há de findar à perfeição, quando seremos perfeitos. O mal menor, o mal do dia a dia, não é fruto de nada que fiz. Sofremos, apenas e provavelmente, devido ao outro. Nem queria me aproximar de uma afirmação sartriana, que me pareceria inevitável agora, e que viria bem a calhar.
No dia-a-dia o sofrimento comporta um referencial: - o outro. O outro que nos faz infelizes é o nosso carma, o nosso inferno, a nossa dor. Nem me refiro à dor do apartamento na morte, mas à dor do apartamento em vida. E nem falemos do apartamento total, inadiável e irremediável. Basta o aumento mínimo da distância natural entre dois seres que se prezam, e já haverá choro. O aumento da distância é apenas uma figura de linguagem, uma abstração, um onírico devaneio, baseada na sensação de perda iminente ou provável. O que não é provável nessa vida? Tudo, enfim.
Também o futuro faz sofrer quando uma prévia curta distância se transforma numa outra milimetricamente maior. Chega-se a pensar que os postulados newtonianos vieram a fazer sofrer. Não queremos mudar, e o distanciar-se é mover-se com o passar do tempo, é mudar a posição relativa. Que o tempo, essa grandeza terrena, congele e cristalize o prazer; não mais transcorra para que não mude a distância. Mas, por que temer o passar do tempo e o mudar da distância se somos perfeitos e não necessitamos evoluir? Muda a distância e o tempo, e não há por que mudarmos.
Por que seria necessária mais de uma vida para tantas e tantas dores? Não chorou Cristo, o Filho de Deus, à morte de Lázaro, seu amigo? Não se angustiou a Majestade dos Céus, em Seus instantes finais, ante o distanciamento do Pai? Não se irou o Rei dos Reis à invasão de Seu templo? Não muda Deus, que é perfeito. Não muda Sua Lei, que é perfeita.
Tolos somos nós, que sofremos por mal pensar, por mal conhecer e por mal saber que existe o mal. Por que se nega a perfeição da Norma do caráter? Por bom motivo é que não seria.