sábado, 4 de junho de 2011

A guerra covarde

Falava eu das incertezas.
            Não há nada mais repleto do óbvio do que o falar das incertezas. Certas obviedades são tão intensas que dissertar sobre elas seria uma repetição de tautologias concatenadas. Seria esse o caso da dissertação sobre as incertezas. Seria?
            Incertezas são sempre adversas. Mesmo a certeza do que não se deseja é menos adversa do que a completa incerteza sobre algo. Eu dizia que as incertezas testam a resiliência, tamanha a adversidade que elas impõem.
            Imaginemos na guerra.
            Paremos antes de seguir, visto que me assalta o pensamento absurdo. Há dois tipos de guerra. A guerra que é mesmo guerra, e a guerra que não parece guerra; ou melhor, é exatamente como a verdadeira guerra, posto que se mate e se morra através da violência do ser humano contra o ser humano, mas nela não se usam uniformes. Essa última é a guerra urbana, que ocorre em países onde a lei não coíbe, onde a justiça não funciona. Ainda assim, imaginemos na guerra, aquela em que se mata de uniforme.
            As cidades são arrasadas e o povo que não morre nos ataques fica sem comida, transporte, hospitais, escolas, água, roupas, e tudo o de mais básico. Há aqui uma certeza na mente desse povo: está instalado o caos, o completo caos. Haverá quem deseje ter morrido nos bombardeios. Mas há também a esperança, e com ela a incerteza. Sua incerteza maior refere-se ao quando. Quando se verá novamente a paz e tudo o que a acompanha?
            Por isso falava eu de nossas poucas e necessárias certezas. Seriam as certezas básicas do atendimento de nossas mais primárias necessidades. Na guerra de bombas e uniformes perde-se tudo isso. Daí haver quem preferisse morrer a viver sem elas. Na morte cessa todo e qualquer sofrimento.
            É provável que na guerra suscite-se no povo o crescimento de resiliências individuais e coletivas, além da aversão àqueles efeitos da guerra e o desejo ardente de impedir uma nova a todo custo.
            Na guerra urbana, que chamaremos de “a guerra covarde”, um dos lados não está armado. Sua única arma, a lei, não dispara um só tiro mortal contra o inimigo. Resta ao “soldado” desarmado esconder-se, esquivar-se, não se embrenhar, seguir certas normas que cerceiam o que ele imagina ter – a liberdade. Assim, nessa guerra, maior ainda é a incerteza. O sujeito sai de casa para o trabalho, mas não sabe se voltará. O aluno vai à escola, mas não sabe se de lá regressará vivo. A senhora sai com o bebê e não sabe se ele será arrastado pelas ruas preso ao cinto de segurança por “soldados” fortemente armados e ferozes de ira.
            Contudo, ao contrário da guerra de uniformes, a guerra covarde não parece implicar no aumento da resiliência do povo nem da aversão a ela. Em que pese a constatação fragorosa da falência das instituições como uma causa preponderante dessa guerra, o povo não se dispõe a amar as instituições e a lei. Ele segue como povo, cada um por si, embasado nas esperanças individuais de melhores dias; embrenha-se na falta de identidade das multidões a esconder-se de seus algozes; alimenta a esperança de que jamais verá a sua vez de ser a vítima; acovarda-se, de modo que essa guerra, a guerra urbana, não lhe serve a refinar o caráter; troca a resiliência pela resignação covarde, o que acaba por lhe piorar mais ainda as entranhas já podres.
            A guerra covarde é covarde por nela dar-se o enfrentamento do armado com o desarmado e por nela moldar-se o povo covarde, sem caráter, sem amor à lei, sem ânsias da glória dos bons combates, sem o heroísmo dos que põem em risco a vida para libertar sua nação e seus concidadãos das pragas que lhe acometem. Esse povo deixa de aprender no dia a dia que a nação é uma congregação de homens que buscam o mesmo bem e que não há felicidades individuais que sobrevivam à ausência de felicidade coletiva. A guerra covarde é também a guerra dos covardes.