quinta-feira, 2 de junho de 2011

Aeroporto

Tenho que admitir: meu amigo Ciro Ciarlini está certíssimo.
Creio já ter-lhes contado antes. Ciro detesta viagens internacionais. Para ser ainda mais verdadeiro, direi que o homem detesta também as nacionais. Para ele aeroportos são lugares a serem evitados, os nacionais pela precariedade de suas estruturas e serviços, os internacionais pelo excesso de tudo.
Em aeroportos que são verdadeiros mundos em países onde a segurança é a neurose preponderante, o sujeito é mais humilhado do que as vacas de meu querido Feitosinha.  Não sei se sabem, mas o Feitosinha cria umas vaquinhas ali, numa humilde propriedade a alguns quilômetros da cidade, no caminho do Iguape. Pois bem.  Quando vão lá umas horas, Feitosinha põe os bichos numa fila indiana para que bebam água em enorme tanque. Um a um eles saem do mato onde pastam e entram por caminho cercado de madeira em direção do reservatório, ao grito de comando de meu amigo ou de seu capataz. O boi é um animal manso e submisso, mas ainda assim é espantosa a sua inteligência e instinto de organização para o ritual do Feitosinha.
Em grandes aeroportos se dá o mesmo conosco. (Estou subestimando a coisa. O que acontece lá conosco é pior, bem pior.) Filas enormes são transformadas em ziguezagues que dão náuseas; depois quase despem os miseráveis viajantes em busca de bombas, armas, explosivos, ou qualquer troço que possa ser usado para seqüestrar um avião. Isso sem falar em nossas bagagens de mão que são, muitas vezes, abertas em busca desses bagulhos.
E as esperas? As esperas são um exercício de paciência para qualquer mortal que adentre esse ambiente impessoal que é o aeroporto. Tão impessoal ele é que a polidez fria e modorrenta de seus funcionários espanta pelo cinismo. Ainda assim há sorrisos. Um tanto quanto amarelos, mas ainda assim os há, e são suscitados quando o vendedor de uma de suas inúmeras lojas vende algo.
Eu disse que aeroportos são verdadeiros mundos? No último onde estive a jornada até o portão de embarque durou pouco mais de meia hora. Conclui-se que, ainda que se chegue no horário, sempre se está a um segundo de se atrasar e perder o vôo. Em resumo: os gigantescos aeroportos do primeiro mundo padecem de excesso de gente, de distâncias, de cinismo, de lojas, de espera e o que mais se queira enumerar. As vantagens de sua perfeita operacionalidade – eles funcionam impecavelmente – são pagas com os tais excessos. E daí o pior: não há do que reclamar. Meu desabafo é o desabafo do brasileiro não dado ao funcionamento perfeito do que quer que seja.
Sei o que incomoda o Ciro. É o mesmo que a mim – no gigantesco aeroporto do primeiro mundo o sujeito perde o sossego e é tratado como as vacas do Feitosinha. Tudo funciona perfeitamente, nada dá errado, mas ainda assim a sensação de ser uma vaca do Feitosinha não pára de se abater sobre o cristão. Fico cá me perguntando sobre o pessoal da primeira classe, o povo que tem status de very important person. Quero crer que a eles não se impõe o triátlon do aeroporto. Ou estarei equivocado? É bem provável quem sim.

                                                               ***

Terminara de escrever as notas acima poucos minutos antes de o piloto anunciar nossa aproximação do aeroporto de Madrid, onde faria a conexão que me levaria de volta ao Brasil. Atentei para a hora e percebi o problema – a conexão partiria em pouco mais de trinta minutos depois da parada completa do avião no finger de desembarque de passageiros.
O aeroporto Madrid-Barajas é um monstrengo com dois enormes terminais distantes cerca de 1,5 quilômetro um do outro. Se você tem uma conexão neste aeroporto, ela partirá do terminal diferente do de chegada. Entre os dois há um metrô a interligá-los. É quase certo que meia hora não seja tempo suficiente nem para que os passageiros alcancem o portão de embarque, nem para que a bagagem seja transportada de um avião a outro.
Conclusão: após uma correria maluca dentro daquele antro de ferro, alumínio, concreto, vidro, madeira e fibra de vários materiais, chegamos ao portão de embarque apenas para descobrir que perdêramos o vôo. A partir daquele instante se iniciou a saga de cerca de quarenta pessoas para voltar para casa.
Durante a espera, algumas constatações improváveis. Aeroporto de primeiro mundo tem papel higiênico e privada. Por dedução podemos afirmar categoricamente: no primeiro mundo também se faz cocô. Isso é de uma dimensão inusitada, visto que muitos bons brasileiros já perdiam as esperanças por achar que só no Brasil se caga e se faz cagada. Outro exemplo esclarecedor: no primeiro mundo as pessoas xingam as outras quando com elas se irritam. Não é somente o brasileiro a mandar o funcionário mal educado da companhia aérea se foder quando flagrado em evidente delito da descortesia e prepotência. Outras pessoas de nacionalidade diversa, muitas nascidas e criadas no primeiro mundo, também o fazem. E com que ira, e com que esgares e trejeitos! Não fosse apenas isso, diríamos que também no primeiro mundo a polícia é usada para intimidar o cidadão de bem, exatamente como se faz em terras tupiniquins. É um alívio descobrir que muito do que fazemos aí se faz aqui também. O homem é o mesmo em sua essência, e no aeroporto essa essência única se expõe como os bofes do gato morto à beira da estrada.
Aqui estou eu, agora, no aeroporto de Madrid, onde não queria estar, após almoço patrocinado pela fajuta companhia aérea de primeiro mundo, escrevendo as linhas que comprovam o que disse ao início e esperando voar em seis horas por mais doze. Penso nas caras que fará o meu querido Ciro Ciarlini quando lhe contar este episódio fatídico. Dirá, segurando e subindo as calças frouxas pelos lados: -“Eu não te digo, rapaz? Desse jeito é melhor ficar em casa!”

Madrid, 31.05.2011