sexta-feira, 24 de junho de 2011

Mais saraus e menos redes sociais

Acho que foi o Rubem Alves quem disse, numa crônica repleta de verdades contundentes, que o povo não presta. Disse mais. Disse que o indivíduo sozinho, extraído do povo, isolado do povo, busca a virtude e age segundo régios e rígidos princípios morais. Concluiu o Rubem que o sujeito, quando faz parte da massa, quando é povo, passa a ser movido por não se sabe quais forças malignas.
            Uma querida amiga, em resposta ao meu texto de ontem De flozô nas redes sociais, escreveu o seguinte – que o Facebook possui 700 milhões de usuários e que se tem a opção de ficar de fora, mas quem o fizer muito tem a perder.
            Com efeito, tal elasticidade numérica é algo digno de notar, e me fez lembrar uma do Nelson, que disse que toda unanimidade é burra. Não é o caso com o Facebook, cuja multidão de apreciadores pouco passa de dez por cento da população do globo. Não diríamos, portanto, que essa rede social seja uma pretensa unanimidade, mas há que se reconhecer que estão aí mais de três Brasis a se empanturrar de exibições e mexericos diversos.
            Ainda que não seja a unanimidade que o saudoso Nelson Rodrigues taxou de burra, possa ser que a multidão aventada venha a preencher os critérios do grande Rubem Alves. Afinal, 700 milhões de pessoas é um povaréu, uma quantidade imensa de gente.
            Assim, a pergunta que me faço após essa inquietante reflexão é sobre se fico ou não de fora delas. Não estou fora, já que uso as redes sociais para divulgar os textos que escrevo, e a isso elas me parecem uma poderosa ferramenta. Também, vez ou outra, lanço às redes sociais uma e outra música que julgo bela a fim de levar aos amigos que lá estão o prazer de ouvir uma boa canção. No mais elas me parecem de uma inutilidade definitiva e inamovível. Foi sobre essa redundante e insistente inutilidade que escrevi no De flozô nas redes sociais.
            Concluo o seguinte – nem todos estão a fomentar a imprestabilidade nas redes sociais, e muitos as utilizam naquilo que elas mais são úteis. Fácil é concluir também que ficar de fora, absolutamente de fora, não é muito inteligente porquanto se deixa de utilizar a poderosa ferramenta. Por outro lado, e ratificando o que disse, incitar e estimular a béstia às redes sociais me parece uma excrescência despropositada.
            Vejam lá que não digam que conspiro e critico de forma leviana. Sugiro, para provar o contrário, que os amigos se encontrem mais vezes, promovam mais saraus – convidando através de um telefonema –; que quando saírem a viajar façam, ao retorno, em casa, uma sessão de fotos comentadas a relatar os episódios inusitados e divertidos; que quando nascer o bebê que se chamem os amigos para beber seu “mijo”; que se acheguem mais frequentemente, enfim. Afinal o que é mais prazeroso na amizade é estar junto, próximo, pelo simples prazer da convivência. Não se convive na virtualidade. Esse é o engano contra o qual estou e me esgoelar.