sábado, 25 de junho de 2011

O recado do Paulão

Será o Paulão meu parente? Uns dirão que, sim, o homem é meu parente. Afinal é um Cavalcante. Bem, é um Cavalcante com “e”, mas ainda assim um Cavalcante. Existem lá as explicações para a grafia diversa, mas o senso comum ensina que todos os Cavalcant(e)(i) são aparentados.
            Pois me escreveu o meu querido amigo Paulão para sugerir que ainda disserte sobre motociclistas e motoqueiros. Recomenda ele que há aspectos psicológicos nesses cidadãos, e não somente neles, mas em todos que dirigem um veículo, qualquer veículo. Com efeito, tudo o que envolve o ser humano há de ter o seu viés psicológico. Há gente que leva tão a fundo essa idéia que não dá um passo na vida sem consultar o psicólogo. Vejam o Mesquita, por exemplo. Se for viajar, vai antes ao psicólogo. Se estivar a ponto de fechar um negócio, quer antes saber a opinião do psicólogo.
Na América há uma verdadeira obsessão advocatória. Tudo que lá se faz, tudo o que lá se diz, das relações interpessoais à posse do cachorro, tudo, sem exceção, tem um viés legal. Se cometer o disparate de se escorar ao carro do vizinho enquanto atende ao telefone portátil, o indivíduo estará sujeito a responder processo por sabe-se lá que razão. Não se deve, portanto, na América, recostar-se ou escorar-se sobre o carro de quem quer que seja. Lá o advogado é o sujeito mais incomodado do mundo, e as ações que movem nunca envolvem pouco dinheiro. Faz parte da cultura do lucro. Portanto, lá se teme o prejuízo no bolso ao passo que aqui se teme a insanidade mental, a inadaptabilidade.
Mas o que Paulão queria, e que de fato suprimi do texto sobre motociclistas e motoqueiros, era que eu lhes apontasse as diferenças. Creio já tê-lo feito em parte, mas muito faltou. Por exemplo, tentemos responder à seguinte questão: que razão(ões) leva(m) o indivíduo a ter um comportamento, digamos, suicida ao pilotar sua motocicleta? Dissemos que ele se julga inatingível posto que saiba que o poder público o protege da forma mais torpe possível; mas, seria isso o bastante para credenciá-lo a arriscar sua vida em manobras absolutamente temerárias e insanas? Deve haver, no fundo da alma desse ser humano, um desejo oculto de morte, um desprezo enojado e entojado por sua vida. Dir-se-ia que não mais tolera a vida.
Já em certos condutores, notadamente os de veículos maiores – carros, ônibus, vans, etc. – predomina o desejo de matar, e aqui formularíamos a questão pertinente a esses elementos: o que faz um sujeito aparentemente normal transformar-se, subitamente, em um assassino frio e sádico? São essas questões que Paulão queria ver abordadas.
Ora, de psicólogo nada tenho. Como poderia, então, me aventurar a discorrer sobre tão complicado tema? Diz o Schopenhauer que o homem carrega em si o desejo vital de preservação individual, que se manifesta pela fome e o medo da morte, e o desejo vital de preservação da espécie, maior que o primeiro, e que se manifesta pelo impulso sexual e na proteção ferrenha à prole. Não me consta que os motoqueiros vivam sem comer, numa greve de fome irremediável que os mate antes do desastre no trânsito. Então, persiste a dúvida: por que se comportam como se quisessem morrer? Dirá alguém que o desastre mata mais rápido, e eu direi que se assim fosse lançar-se-iam sobre o primeiro poste a toda velocidade. Como nenhum dos acidentados manifesta após o desastre o desejo consciente de morrer, podemos supor um desejo inconsciente?
E o que dizer dos assassinos do volante? A vontade de matar deve ter sido descrita por uma montanha de estudiosos de psicopatas. Eu não saberia nem mesmo começar a tentar explicar o que ocorre com esses indivíduos. Entre eles deve haver alguns que nem chegam a padecer de tal gravidade de comprometimento da saúde mental. Serão pessoas, homens em sua maioria talvez, que levaram chifres, ou que perderam o emprego, ou cujos chefes estão a pressioná-los ao limite, e que, em momento de desvario e “privação dos sentidos” – esse argumento já livrou alguns assassinos em tribunais – avançam sobre alguém e lhe tiram a vida.
Quaisquer que sejam as possibilidades, há, sem dúvida, toda uma bagagem de personalidade, toda uma bagagem educacional, afetiva, emocional e religiosa em indivíduos que arriscam suas vidas e naqueles que tiram a alheia ao conduzir qualquer tipo de veículo.
Alguns órgãos de trânsito de alguns estados já se mobilizam para ampliar a educação sobre ele, também procurando entender e conhecer a personalidade de cada novo candidato a condutor a fim de identificar quais os mais propensos aos desvios. Seria de grande ajuda se essa prospecção atingisse o resultado que se propõe: impedir suicidas e assassinos de dirigir.