sábado, 18 de junho de 2011

De motocicleta sobre o abismo

Uma parte de meus amigos sabe que, desde março, ando motorizado. Alguns, de imediato, tiveram a torpe idéia de me amputar o auto-infligido epíteto de “descarrado”. Ora, “descarrado” não está nos dicionários, não é uma palavra que exista na língua madre. É, de fato, um neologismo por mim criado que significa “sem carro”, ou “aquele que não possui carro”, ou ainda “aquele que se desfez do hábito de usar o próprio carro”.
            Assim, ter adquirido a motocicleta não me descredencia da alcunha. Continuo “descarrado”, continuo sem ter o carro. Há quase sete anos percebi que o carro é uma abjeção completa e irremediável. Hoje, vejam nossas ruas e avenidas. Outro dia uma amiga escreveu o que se revelava o alívio de toda uma cidade, de todo um povo. Escreveu: “finalmente parou de chover em Fortaleza”. Podia ter escrito: “finalmente sumiram de Fortaleza todos os carros”, e teria, da mesma forma, estampado na frase o desejo unânime. E, diga-se de passagem, chuva e carro não combinam nesta desengonçada cidade.
            Pois era precisamente isso que minha doce amiga tentava dizer. Na frase estava implícito o carro que deveria desaparecer da cidade, milhares de carros na verdade. Em Fortaleza a todo instante se tenta desafiar a propriedade da impenetrabilidade da matéria. Diz ela que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. Em Fortaleza o espaço é pouco, ao passo que a matéria é muita. O que se está tentando fazer, e em breve se perceberá que é literalmente impossível, é desafiar a lei da física (ou será da química?).
            O que minha amiga também não disse, e que nenhum proprietário de carro como ela diria, é que iria se desfazer do seu. Todos a concordar com este ponto querem ver menos carros nas ruas, querem que as pessoas se desfaçam de seus carros, mas nenhum deles quer se livrar do seu. A medida é excelente... para os outros, nunca para si mesmo.
            Dirão mil e uma justificativas. Explicarão que o transporte público é insuficiente e caótico, que é a malha viária sucateada muito contribui para o caos no trânsito, que o calor inviabiliza a renúncia ao carro, que a motocicleta é perigosa, que a insegurança não permite, etc.etc. Numa aparente solidez da argumentação e da retórica concluirão, ao fim do discurso, com uma dessas certezas convictas e inapeláveis, que é impossível se viver sem carro nesta pobre cidade, quando, de fato, é justamente o contrário. É impossível se viver com carro em Fortaleza. Farei apenas, em defesa de minha tese, um pedido: que me dêem cinco anos. Sim, esperemos apenas cinco anos, a permanecer tudo como está, para vermos o que virá.
            Dirão também das inevitáveis melhorias da cidade com o advento da Copa. (Um longo suspiro) Com um mordaz desânimo vejo essa história sobre a Copa. Mas esse não é o tema da prosa. Voltemos ao carro ou, melhor, à apologia contra o carro.
            Se as paradas de ônibus estivessem abarrotadas de gente – vejam bem: abarrotadas de verdade, todas elas – haveria bem mais e melhores transportes públicos. Nos primeiros dias seria o caos instalado. Os chefes e os empregos que esperassem. Ninguém é obrigado a ter carro para chegar no horário ao expediente. Os empresários do transporte público, ao servir a elite com a qual se preocupam – sim, porque não dão a mínima para a arraia miúda – passariam a investir mais no setor; e novas empresas, do local ou de outros estados, surgiriam melhorando a concorrência que beneficia o usuário.
            Com isso, o poder público se veria na obrigação de fazer a sua parte – o poder público não gosta de desagradar empresários infligindo-lhes prejuízos contínuos e vultosos pela quebra de seus veículos. Investimentos sérios e maciços na estrutura da malha viária fariam desaparecer os buracos e o asfalto “sonrisal”.
            A insegurança – entenda-se a falta de educação, fiscalização e cumprimento das leis civis e do trânsito – seriam resolvidas com o que se sabe já dar resultados em países ricos. Não queremos ser desenvolvidos? Ajamos como um povo desenvolvido e civilizado. Então seríamos, de fato, desenvolvidos e civilizados. E também nos outros mais de cinco mil e quinhentos municípios brasileiros se faria da mesma forma.
            (Outro mais longo suspiro e meneando a cabeça)
            O abismo que vislumbro não cabe em minha mente, mas é grande o bastante para ser visto. Estamos condenados.