quarta-feira, 18 de abril de 2012

Barriga branca


Não sei se já lhes contei sobre o currículo do Mesquita. Já contei? Se não, conto agora em rápidas pinceladas. É o seguinte.
O Mesquita tem curso superior. Não me lembra agora, mas me parece que é administrador ou economista. Que fez o homem após o curso? Foi ser empresário. E – querem saber? – tornou-se um empresário bem sucedido. Foi dura a batalha para chegar  onde chegou. E com muitos méritos, diga-se. Resultado: o Mesquita passou a acumular dinheiro. De tanto o amontoar, eis que surgiu a montanha.
O Mesquita adora esportes. Gosta de futebol – torce pelo Ceará –, gosta de ir à academia levantar pesos e estar à frente do espelho admirando seus músculos em poses de Mister Universo, e gosta de surf. É surfista da categoria “velha guarda”. Sobre a prancha não se sabe como o homem se equilibra, posto que balance mais que galhos de roseira aos ventos leves, mas ainda participa de competições do esporte. Contudo, o que a maioria não sabe é sobre o outro esporte que ele gosta mais ainda do que todos os que já enumerei – montanhismo. Mas, vejam, Mesquita nunca subiu montanha alguma como alpinista. Talvez a montanha mais elevada que tenha subido tenha sido o Corcovado, no Rio de Janeiro, e nisso se iguala à maioria de nós bons brasileiros. E para isso há de ter-se utilizado de um carro ou dos novos bondinhos que agora lá existem. Equipamento de montanhista ele nem conhece. Se não entendem o que quero dizer, direi que a única paixão que o Mesquita tem no montanhismo é a apreciação de uma paisagem em particular e em especial, por assim dizer – o homem adora contemplar a montanha de dinheiro que acumulou. Se pudesse nela subiria e lá permaneceria a brincar com as notas como uma criança na banheira a brincar e mexer na água. Imaginem o Tio Patinhas – sou do tempo do Tio Patinhas – numa de suas estórias de sucesso, em que acaba em sua caixa-forte particular a mergulhar sob as notas como a banhar-se nelas e com elas. Pois o Mesquita seria o nosso mais atual Tio Patinhas.
Outro dia contei de sua tristeza por estar comprando mais um imóvel. A princípio ninguém atentou para a razão de tão inusitada melancolia, até que o Braga, um observador nato e perscrutador da alma humana, tudo desvendou – Mesquita se entristecia com os freqüentes saques em sua montanha, que diminuía à sua frente e lhe causava as cólicas mais lancinantes e atrozes. Mas não era nada disso que eu ia falar. Falava do currículo do Mesquita. Voltemos ao currículo do Mesquita.
O que aqui interessa é dizer dos inúmeros e variados cursos extracurriculares que ele fez. E não somente cursos. Fez também vários retiros. Se saísse a enumerar aqui todos os cursos e retiros que fez o meu Mesquita, com suas respectivas cargas horárias e temas, nem toda a memória deste computador seria capaz de comportar tanta informação. Diga-se de passagem: o Mesquita só faz cursos acompanhado da mulher. Até porque tudo começou com a terapia de casal que resolveram fazer por... acho que por toda a vida. Até hoje fazem terapia de casal. Descobriram o que eu já há muito suspeitava – o casamento é uma doença e, como toda doença, necessita de terapia. Alguém aí já viu alguém se tratar estando sadio?
Por tudo isso é que exultei quando, hoje, recebi uma correspondência eletrônica intitulada “WORKSHP CURA ELETRÔNICA”. Alguns dirão que estou a debochar e peremptoriamente afirmarei que em absoluto! Outros dirão que, se o enviaram a mim, é porque o remetente me julga um potencial candidato a objeto da “cura eletrônica”, seja lá o que seja isso. Devo lembrar que aos dias de hoje todos estão sujeitos a receber por engano mensagens que de outra forma jamais chegariam. Assim, asseguro: não conheço esta senhora – foi uma senhora – que me remeteu o convite a participar do tal workshop. Mas foi só pôr os olhos sobre a matéria e visualizar o casal que adora fazer cursos que, segundo eles mesmos, “ajudam a viver”: o casal Mesquita.
Ao convite está escrito: “Esta é uma técnica muito nova, onde trazemos o fluxo de elétrons direto do coração do Arcanjo Metátron para os seres humanos, animais e plantas. Chama-se Cura Eletrônica porque utiliza a Luz e a Movimentação dos Elétrons ‘Divinos’”. Perceberam? Diz mais, sobre o mecanismo através do qual a “cura eletrônica” cura os ‘doentes’ ou seus necessitados: “esse fluxo de elétrons vai elevar a vibração, formando uma corrente de alta freqüência, conduzindo ao despertar da consciência para as novas realidades supra-físicas”. Vejam que o negócio não é pouca coisa! Assim, mais que de imediato liguei em separado para o Mesquita e sua digníssima. Ela me pediu que, encarecidamente, não pusesse pilha ao homem senão ele iria querer fazer o exuberante e moderno workshop, fazendo até parecer que ela não goste desses “negócios”. Já o Mesquita mostrou-se excitadíssimo com a possibilidade de receber os “elétrons divinos”. Disse: -“Fiz um curso de Chacras!” Respondi-lhe que ele poderia se “atualizar” e conhecer as novidades no assunto e que poderia até se tornar professor na matéria ao final do curso, mas o aconselhei a ter o máximo cuidado a não ser eletrocutado durante as aulas. Afinal, elétrons “divinos” saídos direto do coração do Metátron devem ser elétrons altamente energizados e, portanto, potencialmente letais.
Após mais umas poucas demonstrações de entusiasmo por parte do Mesquita quanto à sua nova forma de terapia a se desenhar, nos despedimos com a promessa de minha parte de lhe enviar o convite que havia recebido por engano. Tudo isso se passou à tarde de hoje.
Entretanto, não sei se sabem, mas na casa do Mesquita a última palavra a valer é dele. Diz sempre: -“Sim, senhora!” É o que, presumo, deve ter ocorrido. Qual não foi minha surpresa quando, ao abrir minhas mensagens há pouco, vislumbro entre elas uma do Mesquita em resposta ao convite que lhe enviei a participar do workshop sobre “cura eletrônica”. Disse, categórico: -“Tô fora!”
A pior desgraça do mundo é um homem barriga branca...