terça-feira, 24 de abril de 2012

Morre doente que, segundo o jornal, não corria risco de morte


À página 19 do jornal O Povo de segunda-feira 9 de abril de 2012 está estampada a manchete: “Paixão de Cristo] Ator enforcado por acidente não corre risco de morte” (http://www.opovo.com.br/app/opovo/brasil/2012/04/09/noticiasjornalbrasil,2817059/ator-enforcado-por-acidente-nao-corre-risco-de-morte.shtml). Ao que parece, a fonte do jornal foi a Folhapress, ao que me parece uma agência noticiosa onde alguns diários buscam informações para divulgá-las em suas próprias páginas. É o que se lê ao final da matéria, entre parênteses. A reportagem relata o acidente no qual foi vítima o desconhecido ator Thiago Klimeck, de 27 anos, que sofreu enforcamento acidental ao interpretar o apóstolo Judas nos festejos da sexta-feira santa durante a encenação da Paixão de Cristo. A matéria foi publicada três dias depois do fato.
O problema é que há lá pelo menos uma aberração, escrita por sabe-se lá quem. Está escrito precisamente o seguinte, ipsis litteris: “Segundo o médico Magen Haidar, Thiago teve ‘escócia’ cerebral – quando falta oxigênio ao cérebro – após uma asfixia mecânica etc”. (No Aurélio está escrito o seguinte sobre escócia: moldura côncava que faz parte da base de uma coluna; nacela.) O redator da matéria, em suma, afirmou que Thiago sofreu “escócia cerebral” e explicou o que é isso: é quando falta oxigênio ao cérebro. Vê-se nitidamente o erro crasso. O jovem ator sofreu hipóxia ou anóxia cerebral por asfixia devida ao enforcamento acidental. Analisando o termo usado pelo redator em sua confusão mental fica-se tentado a pensar que ele escreveu a matéria ouvindo-a de alguma fonte ou de alguém. Se a escreveu através da leitura de outro portal, fica a suspeita de que necessite urgentemente de lentes corretivas. Qualquer que seja o caso, fica evidente a pouca confiança que nos inspiram alguns de nossos jornalistas, revisores e editores no trato com a língua pátria.   
Eu disse pelo menos uma aberração, mas na verdade o tempo veio mostrar que existiam duas aberrações na reportagem. A outra – além da do assassinato da língua madre mostrado acima – era a informação em si, que ela trazia à sua headline, quase como uma garantia, de que o jovem não corria risco de morrer. Segundo a matéria, a irmã do ator afirmou que ele não corria risco de morte.
Pois eis que à página 12 do mesmo jornal O Povo de ontem, terça-feira 23 de abril de 2012, a manchete demonstra que as esperanças que os familiares do jovem ator alimentaram com ardor e grande desejo se viram, infelizmente, frustradas: “Tragédia] Morre ator que interpretava Judas” (http://www.opovo.com.br/app/opovo/brasil/2012/04/23/noticiasjornalbrasil,2825917/morre-ator-que-interpretava-judas.shtml). Perdoa-se a angústia e o sofrimento de uma irmã ao ver seu amado irmão a jazer em leito de unidade de terapia intensiva, anestesiada pela esperança de um desfecho feliz. O que não se perdoa é a manchete sensacionalista e sem autoridade de anunciar prognósticos sobre os quais não tem conhecimento abalizado. Pode um jornal/jornalista divulgar em manchete uma informação sem lastro técnico? sustentada apenas no sentimento de esperança de um familiar da vítima, como é o caso? Não demonstra isso um descaso com a presumível verdade por parte do órgão informador? Ainda que todos torcessem pela plena recuperação do ator, não seria obrigação do noticioso zelar pela fidedignidade de sua informação?
Mesmo para o médico, muitas vezes é difícil prognosticar. Ainda que tenha ciência da história natural das doenças que trata e também de dados estatísticos dos resultados de muitas terapias e suportes de vida, é tudo uma questão de probabilidades cujos maiores fatores influenciadores ainda não se conhecem. Assim, não é fácil prognosticar. Eis, então, que o jornal estampa a manchete colhida de fonte leiga, emocionalmente e compreensivelmente abalada. Poderia ter escrito “Ator sofre acidente ao interpretar Judas” e, no desenvolvimento da matéria, ser verdadeiro e afirmar que nada ainda se poderia então dizer sobre o desfecho do caso.
Outra tragédia está a se desenrolar no presente, o acidente com o filho do cantor Leonardo, que sofreu traumatismo crânio-encefálico após uma capotagem do veículo em que viajava. A coisa aqui tem sido diferente – foi divulgado hoje na íntegra no portal do O Povo o boletim médico sobre o estado de saúde do garoto (http://www.opovo.com.br/app/maisnoticias/brasil/2012/04/24/noticiasbrasil,2826848/pedro-leonardo-passara-por-hemodialise-apos-piora-da-funcao-renal.shtml). Não se emitem opiniões. Imperam os dados puramente técnicos. As esperanças estão nos corações. Não queremos a morte de mais um ser humano. Queremos que ele sobreviva, se possível, sem seqüelas e sem cicatrizes. Aqui, ao contrário, divulga-se e expõe-se, presume-se com a autorização da família, a intimidade do enfermo e de seus males fisiológicos.