sexta-feira, 27 de abril de 2012

Sensacionalismo por nobre causa


Vejam que nada tenho contra os jornais! Contudo, confesso: também nada tenho a favor. Se puser à balança meu contra/a favor, o objeto se inclinará mais à esquerda. Minhas razões: nossos periódicos adoram o sensacionalismo barato. Alguém dirá que todos os jornais gostam do e praticam o sensacionalismo, e direi que o mais barato e rasteiro sensacionalismo é a marca registrada dos nossos.
            Por exemplo, amanhã. Amanhã pelo menos um de nossos periódicos anunciará em manchete de letras garrafais o desaparecimento de uma professora moradora do bairro Luciano Cavalcante. Segundo consta, a jovem senhorita saiu às 6 horas de ontem para ir ao trabalho e, após suposto contratempo com seu veículo, comunicado por ela por volta das 07h30min, lá não apareceu nem voltou para casa. Às 08h30min teria avisado que chegaria atrasada à escola. Às 13 horas o noivo da mulher já foi prestar queixa à delegacia. Faz, portanto, pouco mais de 24 horas que ela “desapareceu”.
            Não sei se lembram que há pouco mais de dois ou três meses uma outra mulher, uma jovem senhora mãe de família, saiu de casa para uma caminhada matinal e “desapareceu”. A cidade inteira já se cobria de comoção prevendo um desfecho funesto para o caso. Pensava-se tudo de ruim. Quando a polícia soltou seus cães farejadores à caça da mulher, eis que ela apareceu sã e salva. Onde estava? Aonde tinha ido? Ficou bem entendido ao final do episódio que as coisas não iam bem entre ela e o marido, pois sim. A imprensa então suspendeu seus arroubos lucubratórios, e esqueceu-se o caso. Um ou outro articulista, depois, escreveu sobre o drama da mulher dando-lhe o viés apropriado e até emoldurando-o em ares romanescos e reflexivos.
            Agora a infeliz quase coincidência nos traz a tona novo “desaparecimento”. Pergunto a meus inúmeros consultores jurídicos: - já é o caso de se o considerar um desaparecimento? ou é necessário que se passe um lapso maior de tempo para que se o considere assim? Em seu portal o periódico dá conta de que são os familiares em desespero que estão a divulgar o caso. E o jornal? Está fazendo o quê? Dando uma forcinha, n’é? Ou estariam a espicaçar a veia mórbida do povo, tangendo-o a já imaginar sangue e dor?
            Estava em Londres em maio passado e eis que me deparo com a manchete do Daily Mail do dia 26.05.2011: “Elderly patients dying of thirst” (“Pacientes idosos estão morrendo de sede”). As letras eram enormes, quase metade da capa. As nossas nem chegam perto. Tenho um exemplar da edição comigo para quem duvidar. A matéria trazia o resultado de um levantamento feito em 12 instituições do Sistema Nacional de Saúde britânico que demonstrou que 3 delas negligenciavam “gravemente” cuidados básicos de enfermagem para com os pacientes idosos, como dar-lhes de beber e até de comer. Os médicos tinham que prescrever “dar água” aos pacientes, caso contrário as enfermeiras não atentavam. E conclui a matéria: “a desidratação contribui diretamente com mais de 800 mortes de idosos por ano, enquanto outros 300 morrem de desnutrição”. Manchetes anteriores diziam: “Neglect that shames Britain” (“Negligência que envergonha a Grã-Bretanha”), de 02.12.2010; “Elderly facing eviction from NHS beds” (“Idoso encara o despejo de seu leito do hospital”), de 16.02.2011; e “We have forgotten our duty to the old” (Esquecemos nossas obrigações para com o idoso”), da mesma data.
O jornal, então, lançou uma campanha juntamente com a Associação de Pacientes conclamando o final da negligência institucionalizada para com o idoso no sistema de saúde, e o resultado foi que seus leitores ajudaram a levantar a quantia de 100.000 libras esterlinas, doadas a instituições de caridade. Elas contrataram mais pessoas para ajudar a cuidar dos idosos internados nessas instituições.
            Dirão que falo da Grã-Bretanha, um lugar do primeiro com jornal de primeiro mundo. Exatamente – falo da Grã-Bretanha, um lugar do primeiro mundo com jornal de primeiro mundo. No primeiro mundo acontecem descalabros, como se pode ver nesses relatos. A diferença é o veemente viés de indignação do jornal e sua notável proatividade para liderar uma mudança aliado a instituições vigilantes. E lá a coisa não é de “faz-de-conta”, não. As mudanças ocorrem tão logo surja o clamor.
            Estamos na torcida a que o caso do desaparecimento da professora tenha um bom desfecho e frustre a gana de nosso periódico fajuto. Ele está sedento para pôr o caso à página policial. Uma vergonha.