segunda-feira, 16 de abril de 2012

Análise do discurso?

Outro dia, num sarau em casa de amigos, conversava com meu recém apresentado amigo Ostramundo Nóia, psiquiatra de elevada estirpe entre seus pares e de boa reputação entre seus clientes. (Custa-me entender como pode um cliente de qualquer psiquiatra ser capaz de avaliar a qualidade de seu desempenho, mas, em todo caso, vá lá que seja...) Era uma reunião para recepcionar um casal de poloneses que se perderam por essas bandas, amigos do casal Nóia. A conversa era em inglês, já que nenhum dos convivas falava a língua dos ilustres convidados, nem eles arranhavam uma vírgula do português.
            Lá pelas tantas as uísques-calibradas mentes se entretinham em amenidades e, exceto medicina, de tudo se falava. Eu julgava ser tudo muito bom já que havia, então, se não uma maioria absoluta de médicos, pelo menos um número considerável: três ao todo – o casal Nóia e eu. É sabido da tendência dos médicos, quando em reuniões sociais, de puxar a sardinha para seu lado e encetar assuntos referentes ao seu trabalho. Na oportunidade essa tendência se dissipou quando, às apresentações, a anfitriã anunciou ao casal psiquiatra que também eu era discípulo de Asclepius. Ao responder sobre qual a minha especialidade, toda e qualquer comunicação entre nós em torno do assunto “medicina” se dissolveu como um picolé Pardal à canícula da praia ensolarada. É conhecida a reserva dos médicos da mente aos maus olores do corpo e também aos que cuidam a que ele se dissipe. Assim, conversou-se sobre o resto. Até que...
            ...meu caro Ostramundo comentou de um projeto em andamento: estavam a escrever um livro cujo tema central seria um estudo da tendência dos que sofrem do transtorno bipolar ao suicídio. E arrematou: -“Meu editor me convocou a uma reunião porque eu escrevera a palavra ‘suicídio’ bem mais vezes que a expressão ‘transtorno bipolar’!” E me explicou essa nova ciência que é a análise do discurso. Sem ainda ter lido nada sobre o que me parecia ser tão interessante assunto, indaguei ao nobre amigo se a análise editorial em seu texto não lhe teria exposto um Freudian slip (ato falho), ao que ele foi categórico: -“Em absoluto!” Alguns uísques depois nos despedimos.
            Não sei se têm percebido o quanto tenho lido jornais. Assumo: disse inúmeras vezes que não lia jornais. De fato, não lia jornais, mas de uns tempos pra cá eles têm se tornado minha notória e deslavada obsessão. Minto. Não são eles em si a obsessão, mas seu conteúdo. A conversa travada com meu amigo Dr. Nóia fez tudo se tornar claro feito água – cresce em mim cada vez mais o ardente desejo por uma leitura do discurso impresso nesses veículos de comunicação. Ainda que vários autores lhes redijam as páginas, há de lá estar a mensagem maior que emana dos vários discursos e reportagens que lá se lêem.
            Segundo a Wikipédia, uma das leituras possíveis desta análise é a de que “todo discurso é uma construção social, não individual, e que só pode ser analisado considerando seu contexto histórico-social, suas condições de produção; significa ainda que o discurso reflete uma visão de mundo determinada, necessariamente vinculada à do(s) seu(s) autor(es) e à sociedade em que vive(m)”. Seria então possível uma análise do discurso de uma peça produzida por múltiplos autores como é o jornal? Seguramente tal peça literária de nosso dia-a-dia emite os sinais que capta de nosso tempo e lugar, como a reverberar nossas mais eloqüentes dores, nossos mais incontidos estupores, nossos medos mais enraizados e renitentes, nossos maiores clamores e mesmo a mudez de nossas indignações.
            Vejam, a título de exemplo, a manchete maior de nosso O Povo de hoje, em negrito como lá está: Ferroviário é rebaixado. A matéria se debruça a esmiuçar o fato inédito de este tradicional clube do futebol local ter sido rebaixado à nossa segunda divisão. Todos sabem que os nossos melhores da primeira são dos piores do país; agora, imaginem-se os da segunda. Apesar da importância “rabo de fila” que este tema tem em nossas prioridades, elegê-lo como manchete principal emite-nos pelo menos um sinal: vamos dar uma relaxada que a coisa ‘tá braba! E, a propósito, é por demais conhecida a ausência de emoção que acomete os torcedores deste medíocre time de futebol que é o Ferroviário. Sua regularidade no nível inferior é tão grande e já há tanto se prolonga que não vejo nenhuma surpresa na imponente manchete. Seus torcedores já se acostumaram à sina. Seu fleugmatismo chega a ser exasperante.
            Comparada à do O Povo, a manchete do Diário do Nordeste exalta tema importante, mas não menos exasperante que a paciência dos torcedores corais – a lentidão de nossa justiça. Diz ela: Ações ficam até 5 anos nos Juizados Especiais. Atentem: nos Juizados Especiais!, onde a média deveria ser de 75 dias. Nada disso é inédito em nossa sofrida e lamentável crônica. Parece que os poderosos de outrora perderam de fato o poder a julgar pela vitória tardia do senhor Tasso Jereissati, nos tribunais, numa ação por danos morais movida contra o atual senador José Pimentel. É matéria dos jornais de hoje. A ação teve início em 2001, quando um era governador de estado e o outro deputado federal. A sentença saiu quase 11 anos depois, e o senhor Jereissati receberá menos de 10% do valor que pleiteava a título de indenização – ele pedia R$ 500 mil. Ele continua muito rico, mas não exerce hoje função pública e tem zero de poder, ao passo que o outro não possui riqueza, mas é senador da república. É o poder do dinheiro contra o poder político, o poder do poder. Bem se vê que ambos têm, de fato, muito poder – o senador paga fácil os R$ 30 mil, mas lhe fica a pecha de condenado, o que mostra alguma força do senhor Jereissati. Seria possível outra leitura? Respondam-me lá os experts em análise de discursos.
            E o que dizer da queda do ex-governador Lúcio Alcântara no buraco da Avenida Beira-Mar, zona “nobre” desta decadente cidade (Lúcio cai da bicicleta e é internado)? A bicicleta do ilustre teve a roda aprisionada dentro do buraco, o que nos indica que ele não deve ser um buraco muito pequeno. O homem foi internado com suspeita de traumatismo crânio-encefálico. Quantos fortalezenses caem nos buracos todos os dias? Sabe-se lá! Com tantos buracos por aí, é provável e possível que um montão deles. Só que são os ilustres desconhecidos que não se tornam manchete, exceção feita a se morressem ao cair no buraco. O lado positivo da história é que o ex ou atual homem público vítima da incompetência do serviço público tem a chance de sentir na própria pele o que sente o cidadão comum vítima da mesma incompetência. A reportagem não nos informa o que ele fará quanto à existência de tamanho buraco à nobre avenida. Omite-se a reportagem ou omite-se o homem esclarecido?
            Para encerrar, convido a quem teve a paciência de me ler até agora para ler o artigo Fortaleza quer soluções, do senador Inácio Arruda (http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2012/04/16/noticiasjornalopiniao,2821589/fortaleza-quer-solucoes.shtml). Quem ainda dispuser de algum tempo que o leia. Mas se não o fizer nada perderá. O ilustríssimo político lá diz o que todos os concidadãos estão carecas de saber. Algumas frases do homem, fisgadas do texto repleto de lingüiças: “A capital precisa de um projeto avançado...”, “...é necessário um projeto político ousado...”, “requer um projeto avançado...”, “este é o grande desafio estratégico:...”, “precisamos de uma ação política destemida...”, e por aí vai. É ou não discurso de candidato a prefeito? em plena coluna do jornal! Aí pergunto: e pode?
No mais, nossos periódicos emanam violência, assaltos, roubos, desvios de dinheiro público, e tudo o de pior que tem ficado cada vez pior. E pergunto novamente: qual a leitura de todo esse discurso? Qual a leitura do discurso dos jornais ao qual nossa sociedade tem dado origem?