quinta-feira, 26 de abril de 2012

Um rótulo para mim


Ela queria uma explicação satisfatória, que de uma vez por todas a permitisse entender o que estava acontecendo. Não atendia seus telefonemas, evitava os lugares que freqüentaram juntos enquanto durou o romance, enfim, fugia dela e de tudo o que a lembrasse.
            Ele se envergonhava de sentir o que sentia. Surpreendera-a com o ex-noivo em restaurante suburbano. Estavam tendo um caso. Ficou claro pelo modo como conversavam, como se acarinhavam, como se olhavam. E, para não haver dúvidas, o beijo. Foi o único que presenciou, já que àquela visão uma espécie de náusea obnubilante quase o leva ao chão, e dali saiu cambaleante e rápido. Em suma – o ciúme o corroia as entranhas como um câncer a se espalhar em sua pressa de consumir. Por isso se escondia e fugia.
            Que fez ela? Valeu-se de um amigo comum, que combinou com ele um almoço. Ela chegaria como que de surpresa, e assim seria obrigado a ouvir ela perguntar o que queria saber. Pois foi justamente o que aconteceu. O amigo deu uma desculpa para ir embora. Ela foi propositalmente de táxi. Tudo muito bem armado. No mínimo teria de levá-la em casa. Era um sábado.
            Com sua insistência por explicações, ele acabou vomitando o que já o decompunha há dias. Contou-lhe da cena que vira, ela e o ex-noivo; e que por isso não queria mais vê-la. Ela desmanchara o noivado pra ficar com ele. Haviam sido acometidos de uma dessas paixões avassaladoras e laváticas, qual o magma que o vulcão expele em suas erupções coléricas e gigantescas; paixão abrasadora como esse material quentíssimo do âmago do planeta, vinda do cerne de cada um a tapar-lhes a boca, sufocar-lhes os gritos, afogar-lhes em miasmas entorpecentes e queimar-lhes a pele e os sexos qual uma substância viciante e vivificante... O noivo se tornara de uma insignificância desprezível, era o que ele pensara.
            O tempo, não obstante, veio demonstrar que não era bem assim. A cena no restaurante denunciou o que vinha acontecendo há meses. Ela e o ex tinham um caso. Uma ironia da vida já que ao início, quando estava ainda noiva, era ele quem mantinha caso com ela. Chifravam o noivo despudoradamente, até o dia em que ela anunciou a ruptura. E rompia com o noivo apenas por insistência dele, que não demandava abertamente tal atitude, mas que gastava um tempo precioso de seus furtivos encontros a se lamentar do noivado.
            Ela era direta, sempre fora. Não mentia. Ele estava para saber: ela não mentia - omitia. E agora, à mesa do restaurante, exercitava sua cruel e seca franqueza. Confessou: nunca rompera de fato com o noivo. Desmanchara o noivado certo dia e dali a uma semana já estava a sair com ele novamente. Essa era a verdade. Por que fizera isso? Olhando-o fixamente nos olhos disse: - “Porque gosto dos dois”!
            Certas verdades são paralisantes. Desarmam o interlocutor. O que se pode argumentar diante de certas verdades? Mesmo a verdade de caráter duvidoso pela medida moral das gentes é congelante. E ainda mais as desse tipo! Quem poderá fazer juízo de valor sobre objetos múltiplos do amor de alguém? As regras são às vezes traídas por exceções desconcertantes difíceis de explicar à luz de sua lógica. Contudo, são essas mesmas exceções que nos remetem a reflexões que de outra forma não cuidaríamos fazer. Haverá sempre alguém a duvidar das idiossincrasias de certos corações. Lançá-los-ão ao poço fundo da baixeza do caráter, como é bem mais fácil fazer. Não se quer debruçar sobre o drama de tamanha excentricidade. O julgamento e a condenação hão de ser sumários.
            Completou, sem o pudor da hipocrisia: -“Quando estou contigo é maravilhoso, e nem penso nele; quando estou com ele é maravilhoso e nem penso em ti”.
            Há, sem dúvida, certos desvios do comportamento, da sexualidade, do hábito alimentar... Mas seria o caso de se considerar tal sentimento um desvio da afetividade? do amor? da paixão? É isso já um desvio da sexualidade? quando “estar” com um e outro não conota o ato em si mas uma sensação de prazer mais ampla e plena, própria dos que se afeiçoam não apenas à carne?
            Ao menos para ele era uma situação completamente nova e absurda. Que argumento utilizar quando, mesmo diante do inusitado, a verdade impera límpida e irrepreensível? Disse a única coisa que lhe veio à cabeça, bem própria de seu evidente chauvinismo: -“Pois quero voltar a ser o amante!” E explicou: -“Reate o noivado – serei novamente o amante”!
            Não há um ser humano vivo ou morto em época recente que tenha comprado um pote que não tenha rótulo, uma roupa que não tenha marca, um carro que não ostente o nome e o símbolo do fabricante. Os rótulos nos são necessários e fundamentais. Ele queria o seu, o de “amante”. Que o outro ficasse com o de “noivo chifrudo”. Assim ele até topava.