quarta-feira, 4 de abril de 2012

Delírios de um senador


Nada está mais repleto de verdade do que a realidade. Zilhões de palavras não são capazes de substituir ou expressar um grama de uma realidade qualquer. Estarreceu-me, ou melhor, não me estarreceu a matéria que li hoje no jornal Diário do Nordeste. Não me estarreceu, mas há de estarrecer a muitos. Há de não estarrecer a outros muitos, também. Em meio a estarrecidos e a não estarrecidos, a realidade repleta da verdade imbatível. E o que diz a manchete da (não) estarrecedora matéria?
            Diz o seguinte: “Paciente morre ao ser atendido no chão” (http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1123064). Aconteceu de o homem, não sei se jovem, não sei se idoso, ter sido alvejado com oito tiros, não sei se de revólver ou se de arma mais pesada. Foi levado ao Hospital Geral de Fortaleza e lá chegando, não havendo maca ou leito onde pôr a vítima, a equipe de plantão lhe prestou atendimento no chão mesmo. O êxito foi letal para ele. Ao se agredir alguém com tantas balas se quer a certeza de tal êxito.
            Vejam que a verdade das palavras vem sempre floreada ou “folclorizada”, o que dá margem a que se lhe diminua a força. A própria imprensa, no caso os autores da matéria, na intenção de chocar o leitor a reveste de uma epígrafe endereçada a lhe “sensacionalizar”. Concluímos, então, que a verdade dita ou escrita há de ser a mais lacônica possível a fim de aproximá-la o máximo da verdade que está na realidade e no fato em si. Ser atendido no chão seguramente não foi fator preponderante no mau êxito das medidas reanimadoras implementadas pela equipe médica na tentativa de reanimar a vítima, suposição que pode ser levantada por leitor leigo ou açodado. Seguramente ela sofreu lesões em órgãos vitais, o que lhe causou a morte. Ser a vítima atendida ao chão apenas denuncia o nível a que nosso sistema de saúde (?) desceu. Além do chão e próximo a ele, a campa. Vê-se, então, que a manchete passou de raspão na mentira para em seguida descrever o fato conseqüência entremeado de várias outros fatos causas, a verdade absoluta de nossa realidade.
            Ah... que saudades dos tempos em que era plantonista na Emergência do Hospital Geral de Fortaleza! lá pelo início dos anos ‘90! As quintas à noite com os meus amigos Paulinho Dourado e Conceição Parente, às sextas à tarde com o querido Moisés Muniz Bezerra, todos grandes cirurgiões emergencistas... E como atendíamos e operávamos doentes vítimas de doenças! Eram raras as vítimas da violência a se submeterem aos nossos bisturis. Tudo estava em seus devidos lugares: os doentes nos leitos ou macas, os corredores desimpedidos e livres à passagem e circulação das pessoas, a equipe médica bem trabalhando em tranqüilidade. Hoje a verdade salta aos olhos. Não importa quanto dinheiro os políticos digam que foi aplicado em saúde, quantos hospitais e postos tenham sido construídos, quanto de equipamento se tenha adquirido, quantas equipes dos programas de saúde primária tenham sido criadas, uma coisa é certa – o caos na saúde é pura e simplesmente notório e evidente. Quem não anda em hospital público nem imagina. Lá está a realidade da saúde. O que se fala só demonstra a incompetência e a má gestão de nossos tubarões da mentira. A coisa piorou muito.
            Vejam, como outro exemplo da verdade reprimida em ânsias eméticas, o artigo do senhor Hugo de Brito Machado, professor de Direito Tributário da UFC, publicado no jornal O Povo de hoje e intitulado “Penas pecuniárias” (http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2012/04/04/noticiasjornalopiniao,2814432/penas-pecuniarias.shtml), e a propósito dessa vítima atendida ao chão do hospital. Ele diz o seguinte, no arremate do texto: “Seja como for, alguma coisa precisa ser feita pelos governantes deste País no sentido de reduzir o número de criminosos soltos nas ruas. Aliás, o noticiário tem indicado que a maior parte dos assaltos, roubos e crimes violentos em geral é praticada por quem deveria estar preso, mas fugiu do presídio ou nem chegou a ser preso. Não basta colocar policiais nas ruas para gerar sensação de segurança, que é uma sensação inteiramente falsa.” (O grifo é meu.) O sistema prisional está cheio de ladrões de galinha e não pagantes de pensão alimentícia, enquanto os facínoras e perigosos criminosos estão soltos. A causa? Os presídios estão superlotados. Por isso ele defende com a lógica da verdade que a pena para crimes leves seja outra que não o encarceramento, e que este fique reservado aos grandes criminosos. O sujeito que leva oito tiros nem na guerra leva oito tiros. Oito tiros é tiro pra matar mafioso. Não sei se lembram a cena de “O Poderoso Chefão”, de Francis Ford Copolla, em que Don Corleone é metralhado na rua em plena luz do dia. Estamos tal qual. É outra bem sabida de nossas falências, apesar das Hilux de mais de cem mil reais...
O diabo é que onde está a verdade lá estará também a mentira ou o delírio. É precisamente o caso com este caso do Hospital Geral ou, melhor ainda, é este o caso com o jornal O Povo, já que há dois dias o senador Inácio Arruda escreveu um artigo intitulado “Saúde é o que interessa” (http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2012/04/02/noticiasjornalopiniao,2813087/saude-e-o-que-interessa.shtml), e que nada de engraçado tem, ainda que tencione nos lembrar o Paulo Cintura da escolinha do Professor Raimundo. A propósito, não sei onde nossos maiores jornais locais aprenderam essa mania feia de permitir que nossos políticos de quinta categoria escrevam suas fantasias e experiências oníricas. O que eles escrevem é, para eles, sonho realizado, ao passo que para o povo não passa dos mais assustadores pesadelos com bicho-papão e tudo. Para o senador, o que foi feito até agora pelos governos “de esquerda” no setor saúde foi o que de melhor já foi feito.
É cômico ler a reportagem do atendimento da vítima de nossa guerra urbana ao chão do hospital e compará-la ao que diz este insigne político nostálgico do imposto mais rejeitado que este país já viu. A conclusão é óbvia: ou ele está delirando, ou o atendimento ao chão foi feito em hospital alemão. E eu sou obrigado a ir dormir com isso.