quarta-feira, 8 de maio de 2013

A vergonha da vergonha

http://m.youtube.com/watch?v=Q0EDaFkas8Y

          Causou-me indignação o modo como o editorialista do jornal O Povo de hoje afagou as autoridades responsáveis pelo caos urbano em que vive Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção no que se refere à violência e completa falta de segurança na cidade. 
          Em seu Editorial "A Busca da Paz", diz o periódico: 
          "O nível de violência a que se chegou, alcançando praticamente toda a população, diretamente ou pelo sentimento de insegurança e medo que se apodera de cada família, exige que as autoridades venham a público debater com a sociedade a situação de estrangulamento que se verifica na segurança pública em Fortaleza e no Ceará. Não é, portanto, com o objetivo de constranger os responsáveis, civis ou militares, pela segurança da sociedade que O Povo vem publicando seguidas matérias sobre o assunto".
          Ora, se não é para peitar esses senhores e senhoras do poder, cuja missão é gerir a pasta da segurança pública do Estado que, todos sabem, tornou-se uma ameaça à própria existência de nossa sociedade, para que diabos seria? No Brasil temos esse "pudor", essa vergonha, esse medo de cobrar do homem público a que ele faça o seu trabalho e, mais, cobrar que o que ele esteja fazendo alcance os resultados que a sociedade espera. Esquece-se que ele está ali é para isso mesmo. Não se lhe pede nenhum favor. No caso particular dessa questão, a própria situação a que se chegou, por si mesma, já deveria provocar um constrangimento abissal nesses senhores. Seria o caso de alguém adentrar o Palácio do Governo, entrar no gabinete de El Cid e lhe dizer, apontando-lhe o dedão nas fuças: -"Você não se envergonha de ter permitido que a coisa chegasse a esse ponto, senhor Governador? O senhor nos envergonha!" E ele, como bom cidadão, deveria, de cabeça baixa e lágrimas nos olhos, implorar nosso perdão e solicitar sua renúncia ao cargo que ocupa. 
          Mas voltemos ao "pudor" do editorialista do O Povo. 
          Este senhor, quem quer que seja, em muito difere do jornalista Fábio Campos, que tem dito o que todos os homens e mulheres de bem desse Estado querem dizer, além de amiúde lhes informar sobre conteúdo desconhecido da maioria sobre a matéria da segurança pública. Ele escreve no mesmo jornal e não tem dó de ninguém quando deita sua pena ao papel. Esse é, no meu entender, o papel do bom jornalismo e denuncia a independência e coragem do jornalista. Em se tratando deste tema, e por sua urgência e gravidade, não mais há espaço para firulas e "frescuras de rabo". Chega de reuniões e debates cuja vacuidade fica clara na inação e na eterna inércia à espera de não se sabe o quê. Urge uma atitude firme e contundente inicial que demonstre claramente o início de uma mudança no rumo dos ventos.
          Não apenas o demasiadamente inapropriado afago, mas também a convocação a que a autoridade debata com a população é pouco. Este é um caso em que há, sim, espaço para o debate, mas este deve vir na seqüência, após alguma ação apropriada inicial em reação aos números que se divulgam a toda hora. 
          Na edição de hoje o jornal anuncia que 873 homicídios a bala ocorreram em Fortaleza entre janeiro e abril do ano corrente. Veja-se que aí não se incluem as mortes por arma branca ou outros meios violentos, nem as mortes do trânsito. 
          A morte em decorrência da violência é apenas o aspecto mais terrível dessa equação macabra de nosso dia-a-dia. Estão todos a esquecer a violência que não mata, mas que herda uma multidão de mutilados e seqüelados. Quantas pessoas, a maioria jovens, estão paraplégicas ou tetraplégicas em decorrência dos diversos meios da violência nesta cidade? Quantas pessoas saíram do hospital com alguma seqüela em decorrência desta guerra? Quantos dias de trabalho foram perdidos por conta disso? Quantos milhões de reais o Estado está desembolsando em auxílios-doença e pensões por invalidez por causa dessa vergonhosa chaga? Quantos milhões de reais o Estado está gastando para tratar estas pessoas? Estão sendo computadas nas estatísticas as vítimas que morrem após longo período de tratamento hospitalar? É nisso que estão gastando, que o Estado está gastando, o dinheiro que lhe paguei em impostos diretos e indiretos? 
          (Ao ano corrente paguei ao Governo Federal a bagatela de R$ 18.570,28 - dezoito mil quinhentos e setenta reais e vinte e oito centavos em imposto de renda. Não faço a menor idéia de quanto paguei nos impostos embutidos em todos os produtos que consumi e nos serviços que utilizei. Os pobres, os que têm uma renda vergonhosa, pagaram muito caro em impostos indiretos. A eles se nega, dia-a-dia, uma mínima chance de sair, de fato, de sua atual condição. Os canalhas da esquerda até mudaram a linha demarcatória da miséria para anunciar aos quatro cantos que nos fizeram um grande favor ao retirar milhões de brasileiros de lá. Pergunto: tiraram, é?) 
          Convido a todos os cidadãos desta miserável cidade a uma visitinha rápida ao Instituto Doutor José Frota - Centro e aos frotinhas. Ela lhes dará uma primeira visão e uma perspectiva aproximada sobre as respostas àquelas intrigantes questões. O que lá verão ao vivo e a cores é o esgoto onde desembocam todas as nossas misérias sociais. O que ocorre e se vê nesses hospitais, e em outros, é o resultado das "políticas públicas e participativas" de suas gestões. É, sem a menor sombra de dúvida, uma vergonha descarada...