segunda-feira, 6 de maio de 2013

O teimoso intrépido do Romeu


          Hoje quem matou a pau foi o arquiteto Romeu Duarte com seu conto/crônica “A epopeia do teimoso intrépido”, no jornal O Povo (http://www.opovo.com.br/app/colunas/romeuduarte/2013/05/06/noticiasromeuduarte,3051017/a-epopeia-do-teimoso-intrepido.shtml|). Em resumo, é a história de um sujeito, certo grandefortalezanse apaixonado e ufanista, tentando provar que Fortaleza é uma cidade de gente ordeira, educada, amante da lei e da ordem. Em seu périplo pela urbe, no afã de desmentir certo cronista desbocado que falara justamente o oposto sobre a cidade, é agredido e ameaçado por concidadãos, e vítima de sua precária infra-estrutura.
          É compreensível que nós, nascidos e criados na Fortaleza dos anos ’60 e ’70, estejamos indignados e revoltados ao vislumbrar uma cidade caótica em saúde pública e privada, em transporte, no trânsito, na educação, nas boas maneiras, na polidez e, como bem escreveu outro cronista há poucos dias no mesmo jornal, uma cidade sem amor. Nelson Rodrigues já dizia há mais de 30 anos: “Está se deteriorando a bondade brasileira. De quinze em quinze minutos aumenta o desgaste de nossa delicadeza”. Pois, ao que parece, Fortaleza está caracterizando o que bem disse nosso maior dramaturgo. E nem mencionei a segurança pública inexistente para que não me acusem de pessimista.
          Se a virga-férrea que ora nos castiga se restringisse ao assassínio e ao trânsito, julgo que haveria uma esperança para seus habitantes. Cedo ou tarde a massa de indignados e de parentes de vítimas será crítica e obrigatoriamente algo deverá ser feito. (O que me pergunto é: o que ainda precisa ocorrer para tal? se aos olhos do senso comum já passamos há muito do limite?) Ainda assim cabe a seguinte reflexão: quantos mais precisam morrer? Para Durkheim, o fato social é patológico quando põe em risco a quebra do contrato social e a estabilidade para o bom convívio, comprometendo a ordem e ameaçando o alcance dos objetivos comuns da sociedade. Nossos crimes põem em risco nosso dia-a-dia? São fatos sociais normais ou patológicos?
          O que me parece sério motivo de preocupação é a corriqueira violência contra a moral e contra as regras mais elementares da boa relação entre nossos convivas, que demonstra justamente nossa falta de amor e a perda de nosso senso de alteridade. Se para aquele tipo de violência, os assassinatos e a violência nas vias públicas, existe o Direito – que há de um dia coibi-lo e rebaixá-lo a níveis toleráveis –, para este nada há. Amor e alteridade são engendrados na família e na escola, e é do conhecimento geral o fato de que estas instituições estão esfaceladas.  
          Que filhos estão-se gerando no seio de nossas famílias destroçadas? O Estado, na pessoa de políticos corruptos, oportunistas e populistas, ensaia um discurso em que supõe e se propõe ser capaz de suprir a falência da família, mas estamos carecas de saber que isso não passa do que realmente é: - a demonstração mais esdrúxula da safadeza institucionalizada e do malcaratismo de nossos homens “públicos”. Usando desse estratagema, esses políticos angariam votos por estimularem e injetarem a esperança numa massa de desesperados e desesperançados, ao mesmo tempo em que desviam de si a atenção para suas obrigações fundamentais não cumpridas a expor sua incompetência.
          Outro dia o excelente jornalista Fabio Campos deixou bem claro em sua coluna no jornal O Povo: os políticos não têm um projeto para a cidade; em seus círculos fechados discutem outros projetos: seus próprios projetos de poder. No portal do referido jornal uma reportagem diz tudo: “Bancada da bala, a força do voto que o mandato não consegue confirmar” (http://www.opovo.com.br/app/opovo/politica/2013/05/04/noticiasjornalpolitica,3050591/bancada-da-bala-a-forca-do-voto-que-o-mandato-nao-consegue-confirmar.shtml), sobre os políticos que se elegem com o discurso antiviolência, mas que pouco ou nada fazem contra ela, quando muito poderiam fazer. Em seus programas televisivos inspiram simpatia pela causa da justiça, mas em seus gabinetes estão-se lixando para os que neles depositaram fé.
          Assim, a aventura do grandefortalezense teimoso e intrépido do Romeu Duarte não poderia dar noutra coisa que não a constatação de que Fortaleza está longe de ser um bom lugar para viver em paz e tranquilidade. A celeridade e a frequência com que este amante de Fortaleza viu se frustrarem suas esperanças é a mesma com a qual qualquer de seus habitantes é agredido em seu perímetro.   Aqui ele segue vivendo porque o bicho homem é, como demonstrou claramente o Dan Ariely, um ser previsivelmente irracional, contrariando o senso comum que pressupõe o oposto. A inércia do se deixar ficar é a única explicação para essa irracionalidade coletiva. O emprego, o imóvel adquirido em módicas parcelas na Caixa ou na construtora, o caro colégio dos filhos, as raízes fincadas no terreno dos relacionamentos sociais, a família – para quem ainda a tem –, tudo isso ainda é uma boa razão para aqui permanecer uma legião de corajosos e teimosos ovantes a esperar no que vai dar. 

         “Quero crer que certas épocas são doentes mentais. Por exemplo: a nossa”. (Nelson Rodrigues)