quinta-feira, 16 de maio de 2013

Fazendo Voltaire feliz


                      Dizia Voltaire: “Não concordo com uma palavra do que disseste, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-lo”.  
          Na edição de hoje do periódico O Povo o articulista Plínio Bortolotti abusou de dizer besteiras. Ainda assim, sou obrigado a reconhecer seu direito de o dizer. Todos podem se manifestar, todos podem dizer o que bem quiser e entender. Mas é preciso ter cuidado a fim de evitar que as paixões influenciem o discurso além da medida.
          Qual o tema do senhor Bortolotti, Diretor Institucional do Grupo de Comunicação O Povo? Resposta: - a vinda dos médicos cubanos para o Brasil. Disse ele: -“Bem vindos, médicos cubanos”. Acredito que havia ao final da frase um ponto de exclamação, desses que utilizamos para exprimir alegria, entusiasmo, energia positiva (http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2013/05/16/noticiasjornalopiniao,3057130/bem-vindos-medicos-cubanos.shtml).
          Fui reler. Não havia ponto de exclamação. Menos mal. O senhor Bortolotti não deixou a paixão lhe subir tanto à cabeça, ou descer tanto ao coração. Em que pese a constatação, foi ele muitíssimo infeliz em suas considerações e, para amenizar de imediato seu efeito deletério sobre alguns leitores, abaixo de sua “Opinião” foi publicada a do Deputado Estadual, doutor Heitor Férrer. Nela o médico esclarece pelo menos um dado irrefutável e facilmente demonstrável, o percentual de médicos cubanos que é reprovado no exame de revalidação do diploma no Brasil: 89% (oitenta e nove porcento.) Sim, somente onze porcento dos médicos cubanos que se propõem a exercer a profissão no Brasil estão aptos para tal (http://www.opovo.com.br/app/opovo/opiniao/2013/05/16/noticiasjornalopiniao,3057132/a-contratacao-de-medicos-cubanos-no-brasil.shtml).
          Outros dois dados que Férrer não se esqueceu de citar, também sobejamente conhecidos como razões pelas quais o médico brasileiro não finca seu pé a fim de seguir carreira em áreas carentes: a baixíssima remuneração – e, muitas vezes, a não remuneração – e as precárias condições para o exercício da profissão.
         Diante desses dados reais, quais besteiras imaginárias disse o senhor Bortolotti? Para começar, taxou os médicos nativos de “elite”. Desconhece o senhor articulista que a esmagadora maioria dos médicos brasileiros é assalariada e labuta muito mais horas que o trabalhador comum em jornadas de trabalho extenuantes? trazendo aos ombros o peso de uma responsabilidade enorme? Se ele desconhece esse fato, é ele, o senhor Bortolotti, o representante da elite nessa história. É ele quem deve fazer uso da medicina de elite. Sim, porque a grande maioria dos brasileiros procura os profissionais do serviço público, aqueles mesmos de quem falei linhas atrás. Senhor Bortolotti, vá correndo a um hospital público para ver o que está acontecendo neste exato momento por lá. O senhor ficaria enojado com os políticos e gestores públicos de seu país e, muito certamente, orgulhoso de seus médicos. Não seja leviano. Conheça. E só depois fale.
          E quem garante que o médico cubano vai compreender melhor as múltiplas variações lingüísticas do povo humilde do sertão e lugares semelhantes quando a informar-lhes de seus males, como afirma o senhor Bortolotti? O senhor garante que eles sabem o que é “aperreado”? “desmetido”? abestado? "farnesim"? “bucho quebrado”? O senhor põe a mão no fogo ao afirmar que nós, médicos “da elite”, não sabemos o que significam esses termos? Deixe-me te dizer uma coisa, Bortolotti: - você é um imbecil travestido de comunista. Nada sabe sobre nós e sobre o povo. Mais uma vez, venha ao hospital, aqui ao IJF, por exemplo. Faço aqui uma ronda com o senhor. Mas fique o dia, o plantão inteiro, não vá embora logo. Acampe aqui conosco. Garanto: - o senhor jamais esquecerá. Nem jamais voltará a escrever bobagem.
          Como é bastante provável que o senhor Bortolotti decline de meu humílimo convite, dar-lhe-ei alguns dados para que se sinta estimulado a me desmascarar um possível embuste. Direi a ele que no IJF, hospital de nível terciário – um hospital desse nível atende casos de complexidade elevada –, falta de tudo, desde antibióticos que jamais deveriam faltar até sabão para lavar as mãos. Outro dia – sexta passada, para ser mais preciso – propus, a certo paciente internado naquela unidade hospitalar, construir-lhe uma ponte fêmuro-tibial posterior com veia safena para salvar-lhe a perna direita ameaçada pela gangrena isquêmica. 
          (Aqui faço uma pausa para dizer que não pretendo me aproveitar da laicidade do leitor e do senhor Bortolotti no jargão médico. Seria uma atitude boçal de minha parte. Dele me utilizo apenas para demonstrar um ponto de vista.)
          Operação em curso, tudo indo às mil maravilhas, tomei, de supetão, conhecimento da falta do fio de sutura adequado à construção da anastomose distal, mais delgado do que o então disponível na casa. Arno von Ristow e J. C. C. Palazzo dizem, à página 12 de seu "Urgências Vasculares" (Ed. Cultura Médica, 1983), sobre o material de sutura em anastomoses vasculares: "...deve ser adequado: vasos com 4 mm de diâmetro podem ser suturados com fio 7-0 ou até 6-0, os de 3 a 2 mm de diâmetro com fio 7-0, e os de menos de 2 mm de diâmetro com fio 9-0 e 10-0". (Quanto mais zeros tem o fio, mais fino ele é.) O hospital me oferecia, para uma anastomose sobre uma artéria de 4 mm e doente, um fio 5-0, mais grosso do que papel de enrolar prego, no dizer do cearensês. 
          Diga-me aí, senhor Bortolotti: o senhor gostaria de se submeter a uma operação desse tipo em hospital que se diz terciário, mas onde falta material primário e básico? O senhor acha que o resultado dessa operação será bom? Ou o senhor, como todo bom "comunista" brasileiro, vai alegar que esses detalhes técnicos não têm importância para um bom resultado em revascularizações de membros isquêmicos? Sim, porque esses senhores da esquerda têm se esmerado em tentar provar que não há o errado, nem existe o erro.
            A questão do conhecimento técnico do médico cubano é incomentável, como diria nosso ignorante e analfabeto ex-ministro Antonio Rogério Magri. Os dados estão escancarados. Só não vê quem não quer, ou quem escolhe não ver. Mas tudo se explica: - nossos comunistas não querem ver o anti-país que estão herdando a nossos filhos. O senhor tem filhos, Bortolotti? Quando doentes, leve-os a ser atendidos por um desses médicos cubanos.   
          O senhor Bortolotti afirma acintosamente e irresponsavelmente que “o suposto argumento técnico, na real, visa garantir reserva de mercado”. Que conclusão acintosa! Que conclusão estúpida! Que conclusão “comunista” e imbecil! A solução de seu governo "comunista" é pôr maus médicos para cuidar do povo humilde e sem voz, senhor jornalista! Talvez faça parte do genocídio – permito-me agora um devaneio tão ou mais estúpido quanto o do senhor Bortolotti – que esse governo “de esquerda” subterraneamente planeja operar no país. Vide a crescente violência, senhor articulista. Não temos mercado nenhum, meu senhor! Seres humanos doentes não são fonte de pecúnia para nós, como o senhor tão imbecilmente faz parecer! Respeite-nos! Não nos tome a todos por um mau exemplo qualquer! (As exclamações são a demonstração de minha indignação com o discurso deste senhor.) O governo brasileiro, empedernidamente indisposto a bem pagar os médicos nativos que vão para áreas carentes, prefere pagar a esses médicos estrangeiros o que para eles é um senhor salário. Sim, porque não sei se o senhor sabe, mas esses médicos ganham cerca de 60 a 70 dólares por mês na ilha de Cuba. Para esses senhores, o Brasil é um paraíso e seu governo um fiel discípulo de Castro.
          Por último, não queremos atrapalhar nada, como tão levianamente o senhor nos acusa! O problema com gente como o senhor, que pensa como o senhor, é o tempo que está reservado à vida humana. Não fosse ele e seria permitido ao senhor testemunhar o desastre que será se tal medida vier a se concretizar. Ainda se te fosse permitido presenciar tal catástrofe, o senhor não o faria. Como todo comunista, prefere permanecer bem instalado a uma distância segura da cruel realidade que assola teus concidadãos.
          O senhor disse o que queria. E eu também. O convite está de pé. Voltaire está feliz conosco.