terça-feira, 14 de maio de 2013

Hedonistas com orgulho


          Paul é inglês? Se não, é escocês. Ou irlandês. Não importa. Paul é britânico. 
          Paul veio tocar no Ceará, em Fortaleza. O cara é ex-Beatles. (É "ex- Beatle" ou "ex-Beatles"? Acho que o correto é "ex-Beatles".) Imaginem o cenário: - um britânico, ex-Beatles, tocando no Ceará. Ninguém poderia ter imaginado isso algum dia. Mas, há algum tempo se anunciou: -"Paul McCartney vem tocar no Ceará"! Teve início um alvoroço. "Eu vou"!, diziam uns; "Eu vou"!, diziam outros; e outros ainda diziam, convictos: -"Eu vou"!. O único que dizia "Não vou"! era eu. Sou um agorafóbico. Sou do contra, como alguém já anunciou. 
          E não é que veio o homem?! Com ele trouxe uma penca de outros britânicos, de outros gringos. Os caras montaram um show de país de Primeiro Mundo. Tudo na mais perfeita ordem britânica.  Tecnicamente, musicalmente, luminosamente, sonoramente, paulmaccartneymente, britanicamente, beatlemente, foi tudo impecável, irretocável; sem falhas, sem uma reclamação a fazer. Paul não decepcionou. (Cumpri o que prometera: - não fui. Mas o que se disse nas redes sociais pode-se classificar como uma unanimidade.)
          Eu, da altura de meus 52, ouço Paul desde que meus ouvidos passaram a ouvir sons. Como integrante do "The Beatles" ou como líder do "The Wings", ouço Paul com o mesmo deleite de sempre. E, repito, não fui ver o Paul tocar. E não fui porque sabia que, para testemunhar a perfeição britânica, teria que me submeter a... procuro a palavra ou expressão que melhor defina nossa incompetência e primitivismo, mas não acho. Tentarei novamente: - para me deleitar da perfeição britânica sabia que teria que me submeter à incompetência e ao amadorismo cearense. 
          “O brasileiro não está preparado para ser o maior do mundo em coisa nenhuma. Ser o maior do mundo em qualquer coisa, mesmo em cuspe à distância, implica uma grave, pesada e sufocante responsabilidade.” Vejam que é uma frase de Nelson Rodrigues, um ufanista incorrigível. Se adaptarmos a frase ao cearense , a diríamos assim: - o cearense não está preparado para coisa nenhuma; ser um Angstrom acima de si mesmo já lhe impõe um vazio, infantil e cômico orgulho. Isso já lhe basta. Com isso se satisfaz plenamente. O cearense gosta mesmo é de pouco. Daí não ter a menor importância o resto, além do espetáculo em si. Se o grande artista aqui veio para tocar é porque nós, os cearenses, somos alguma coisa acima do nível do mar. Um Angstrom que seja, mas somos.
          Em criança já ouvia um velho e engraçado chavão: - quem nunca come mel quando come se lambuza. O caso, ao que parece, é que o cearense ou, melhor, o fortalezense se lambuzou dos pés à cabeça. O mel foi demais para nós, tão carentes de produtos de primeira. Somos mais chegados às porcarias que a Luizianne trazia ao aterro. Até porque elas não nos levavam a nos embrenhar em engarrafamentos quilométricos como o que o show do Paul nos causou. 
          Contudo, vejam como são as coisas nesta Fortaleza desposada do sol: - ao contrário da apresentação de Paul MacCartney, o engarrafamento não foi uma unanimidade. Ouvimos falar, nós que não fomos, de falta de policiamento, de falta de agentes de trânsito, de falta de organização à entrega dos ingressos e à entrada da "Arena"... Até da falta de assaltos e da violência no contexto do show ouvimos falar. Muitos e muitos espectadores, a esmagadora maioria, denunciaram tudo isso e mais o engarrafamento quilométrico, mas – pasmem! – pelo menos um cidadão desta aborrecível cidade adorou tudo, desde o show à desordem e desorganização que o antecederam. Li o relato desta pessoa no jornal e nas redes sociais. Ela – era um homem – fez uma leitura altamente positiva de tudo. Seu relatório nos faz pensar que o show foi em Berlin, ou em Londres, ou em Paris. 
          Tenho uma amiga que de tão feliz, mas de tão feliz com tudo, esbanjava sorrisos e sinais de um humilhante e obsceno júbilo. Ela e o homem das redes sociais são os dois fortalezenses que se sentiam em Londres a apreciar uma apresentação do ex-Beatles realizada nos jardins do palácio de Sua Majestade. Dir-se-ia estarem acometidos de um tipo menos grave de delírio e alucinações. Teriam se empanturrado no ácido? É algo a se considerar.
          No geral, digamos que, apesar de todo o incômodo da logística, todos, sem exceção, aprovaram tudo. A prova? Tragam o Mick Jagger e os Rolling Stones. Todos fariam tudo novamente sem hesitação. Reclamariam de toda a logística e de tudo, mas ao final tudo aprovariam. E é precisamente este o nosso problema: - tudo vai mal mas está tudo bem, tudo deu certo. É só olhar em derredor e veremos que tudo aqui funciona nessa base: - tudo dá certo, apesar de tudo.
          Alguns outros exemplos para os que não entenderam. A educação brasileira, e em particular a do nosso querido Ceará, vai de mal a pior, mas está tudo bem; a saúde e o sistema de saúde dos brasileiros está pior do que jamais esteve, mas seguimos lépidos e fagueiros em nosso hedonismo; a segurança pública por aqui mata mais do que muitas guerras contemporâneas, mas estamos firmes e conscientes de que tudo está maravilhosamente bem e que ao final tudo dará certo como dois e dois são quatro; e assim por diante. Se ao final der para assistir ao show, pra que perder tempo na vida com protestos e reclamações inúteis e improdutivas? 
          Afinal, o brasileiro não quer mesmo ser mais do que já é. Cada qual que se cuide e que se vire. Que venha a Copa das Confederações. E depois o Rock in Rio. Vamos curtir adoidado!