terça-feira, 10 de junho de 2014

A empáfia do pó

“Grande é o Senhor nosso Deus, grande é o seu poder e a sua sabedoria não tem fim.” (Johannes Kepler em “A Harmonia dos Mundos”, 1619)

“... a biologia é o estudo de coisas complicadas que dão a impressão de terem sido planejadas para um propósito.” (Richard Dawkins, “The blind watchmaker”, 1991)

​   Às vezes fico aqui embasbacado com o que vejo, e muitas vezes com o que leio. E por quê? Porque nada é mais contundente à inteligência do que uma evidência. Se se atropelam as evidências, comete-se uma brutal agressão às nossas funções superiores. E quando vejo ou leio tais insanidades, adoeço.
           Uma evidência é algo inolvidável, incapaz de se esvair da memória mesmo que os ventos do tempo a empurrem para longe. Uma evidência fala tão alto que só mesmo o mais teimoso e recalcitrante dos homens para desprezá-la. O adjetivo correto seria tolo. Ou estúpido. Ou insensato.
         Outro dia o meu amigo Ciro Ciarlini e eu discordamos sobre a história contada em Gênesis, mais especificamente sobre a notável evidência dos efeitos do fruto da árvore da vida. Adão viveu novecentos e trinta anos. Matusalém, seu descendente mais longevo, viveu novecentos e sessenta e nove anos. Noé, neto de Matusalém, viveu novecentos e cinqüenta anos, trezentos e cinqüenta dos quais depois do dilúvio, que sobreveio ao ano 1556 após a Criação. Incluam-se aí possuidores dessa longevidade seus filhos e filhas, que foram muitos, gerados durante todo o seu tempo de vida.
           Toda essa longevidade deveu-se, sem sombra de dúvida, aos efeitos do fruto da árvore da vida, plantada ao centro do jardim no Éden, à qual o homem tinha livre acesso até seu apartamento do Criador. Eram tão potentes as propriedades desse fruto que só por volta do final do segundo milênio após a Criação começaram as evidências da degeneração do DNA humanovulnerabilidade a doenças e uma queda brutal na expectativa de vida.
           Sara, mulher de Abraão, descendente de Sem, um dos filhos de Noé, morreu aos cento e vinte e sete anos. O próprio Abraão viveu “apenas” cento e setenta e cinco anos. E a partir de então caiu a longevidade, a ponto de a expectativa de vida não passar dos trinta, quarenta anos.
           Na Idade Média não foi diferente, de modo que o que a ciência conseguiu após, nos séculos seguintes, com a melhoria das condições de vida dos povos, não foi além de um simples naco de quantidade de vida a mais. Por isso o Criador a chama de “falsa ciência”. Ainda hoje, em alguns países da África morre-se como ao tempo dos anos da obscureza.  
Ora, não me venham imputar a balda do fanatismo, que é o que viceja entre nós, mormente entre os dominados àqueles que controlam as mentes; nem me venham diminuir a seriedade do argumento posto que “vera ciência” esteja repleta de lacunas e rombos em seu frágil corpo. Nunca se viu o acaso criar intenção nem propósito; nem nunca se viu informação que não se tenha parido da volição. Nem me agrada à inteligência que o multiplicar de probabilidades tendentes a zero aproximem-se ainda mais do nada para explicar mecanismos tão perfeitos. A probabilidade de o homem ter surgido da evolução – ou ao acaso - é de uma em dez elevado a dois bilhões!! Dá para imaginar uma possibilidade tão absurdamente pequena e entregar-se a ela impunemente? A natureza está repleta de evidências gritantes de uma Vontade, de uma Intenção, de uma Inteligência.
Mas, por hora, deixemos para lá essas evidências que suscitam tantas e tantas discordâncias e embates. É fato que a “ciência” do homem não aceita as evidências do bem provável, e que prefere acreditar ou supor na improbabilidade de um evento sobrenatural, como o tal Big Bang. Eles o chamam singularidade, justamente por ser uma coisa tão única, tão original, tão particular e tão excêntrica que ali as leis da física deixam de vigorar. Deixemos isso por agora.
O caso é que um leitor, comentando o texto “O fruto da árvore da vida” (http://umhomemdescarrado.blogspot.com.br/2014/06/o-fruto-da-arvore-da-vida.html), escreveu o seguinte: "Essa questão de Adão e Eva, na verdade, apenas nos serve para mostrar que a cobra (o grifo é meu) tinha razão ao dizer ‘ao comer do fruto sereis iguais a Deus’. Assim se fez e passamos de criatura para criador, construindo a antroposfera e desenvolvendo um conhecimento amplo, maravilhoso”.
       A cobra... Ah, a cobra! “Mas a serpente, mais sagaz que todos os animais selvagens que o Senhor tinha feito...” Cuidemo-nos quanto à cobra. Sua astúcia tem sido mortal. Vejam meu leitor a lhe dar razão. A mulher primeva também lhe deu crédito e por isso morremos até os dias de hoje, interrompidos que fomos de comer do fruto da árvore da vida.
      Ora, não construímos ou criamos nada daquilo que chamamos de antroposfera, que, aliás, é apenas um subconjunto da biosfera. Fomos aqui colocados. Nem um fio de cabelo à nossa cabeça somos capazes de acrescentar, a exceção dos implantes artificiais que mais se assemelham a cabelo de boneca. Nem desenvolvemos conhecimento algum, posto que todas as maravilhas estejam no conhecimento da mente infinita do Criador, e o que temos feito é desbravá-la naquilo que ela se dá a entender. No mais, nada somos.
            E somos. Pó. Eis o que somos. Esta é também uma evidência incontestável e humilhante.

Fernando Cavalcanti, 16.09.2010