quarta-feira, 25 de junho de 2014

A "PONTA"


          Há quanto tempo não te escrevo? Já vão uns poucos anos, a bem da verdade. Lembro-me que diluíste nossa amizade em crescentes volumes do vazio que a destinaria ao seu fim. O porquê nunca me ficou claro, devo confessar. E após o desfecho fatal, que não ocorreu como um evento pontual, único, isolado, identificável, restou o vazio do que foi sem nunca ter sido. Bem sei a razão – iniciaste uma nova vida, e nela não havia espaço para mim, para o mundo que comigo dividias. Fui alijado do teu mundo; fui excluído de tua nova vida, de teu convíviocomo se houvesse contribuído de alguma forma para tanto o querer sem mim. Sinto que contribuí para tua fuga, tua guinada, teu exílio de mim. Após rigoroso exame de consciência, entretanto, custa-me ver algo que tenha feito para ter sido objeto dessa repulsa. Contudo, deve-se respeitar a vontade alheia, principalmente quando fica clara a inconveniência que causamos, seja lá qual for.
          Entretanto, não te escrevo agora para queixumes, que não sou homem de remoer o passado. Apenas a um propósito me serve o passado: - lembrar os fracassos para com eles aprender. No mais, e a propósito, “é uma roupa que não me serve mais”.
          Soube que Amorim esteve em teu consultório a guisa de te levar o convite para a comemoração  de seu aniversário. Ele mesmo mo confessou na festa, já meio ébrio de tanto Old Parr. Confessou-me à língua arrastada: -“Jurava que não virias!” E me jogou nas fuças o convite especial: - o teu. Pairou no ar, aos presentes àquela cena inóspita e surreal, a certeza de tua ausência. Veja como o tipo que criaste converteu-se do malandro adorável ao indelicado inexorável. Não bastasse, ainda como antigamente, confundem-me o comportamento com o teu. Ou melhor, julgam-me ainda capaz de destrinchar-te as atitudes esquivas e fugidias. Para eles ainda sou teu alterego. Não sabem que tens novos amigos, que a mim não são comuns.
          Ainda assim, precisava te escrever para te relatar os fatos a seguir. Bem sei que, na última vez que me escreveste, disseste que te afastara das intrigas, das querelas, dos litígios, de tudo aquilo, enfim, que tira o sossego e a paz do homem. Vê como ainda temos algo em comum: - também eu detesto os litígios e a perturbação da paz. Dou um boi para não entrar numa briga e uma boiada para dela sair se porventura da desventura no centro dela me encontrar. O acaso prega peças, não devemos olvidar.
         A festa foi daquelas que entram para os anais. Uma simples data de aniversário foi comemorada com um regabofe nababesco. Amorim não poupou. À entrada me veio a dúvida: - vim ao casamento de uma grã-fina? Caí em mim ao ver os pares. Uma festa repleta de pessoas do mesmo ramo não pode surpreender, de modo que previ o desfecho: - um tédio de proporções inéditas. No mais, os pseudo-amigos a se trocarem. Nada pode ser mais nauseabundo. Circulei pouco e, exceção feita a um ou outro companheiro que me saudou com cristalina alegria e satisfação ao  me ver, nenhuma conversa que travei foi compatível com o nível esperado. Tolices e anedotas de mau gosto, a maior parte com o fim de apequenar algum dos presentes, e encobertas com o delgado e transparente manto da aparente troça inocente.
          Lá pelas tantas – que não foram tantas assim, visto que me retirei em breve – ouvi duas confissões que me pioraram o estado. Ainda que meu interlocutor me rogasse sigilo absoluto, não o julguei sério o bastante para levar em conta. Ao contrário, tive a nítida impressão de que ele anelava que eu fosse o arauto de suas verdades. Em primeiro lugar, com a cara mais deslavada do mundo, afirmou que a festa era “patrocinada”. Amorim não reunia as condições para arcar com tamanha despesa. Os representantes estavam pagando, segundo ele, metade dos custos da lambança. Em seguida, o tiro de misericórdia – estava todo o mundo ali ganhando uma grana preta com esse tal de caixa dois por uso de material. Em suma: - uma propina, uma “ponta”.
          Por uma segunda vez me senti deslocado – pensei estar em Brasíliaembora o ar estivesse úmido o bastante para sentir o saco pregado às coxas. Então, despedi-me de dois ou três companheiros ainda na flor da idade, e parti. Para os demais saí à francesa. Enquanto caminhava em direção à saída, pensava nos amigos que me esperavam noutro lugar. Não queria estar próximo àquele mundo. Queria fugir dali. Assim como tu o fizeste.

Fernando Cavalcanti, 13.10.2009