terça-feira, 24 de junho de 2014

GARANHÃO

          Chamou a pequena a um canto e disse: -“Posso contar com você"? Queria contratá-la como fisioterapeuta de seus pacientes. Não queria outro profissional. Era uma forma de atá-la a si. Ela assentiu com um gesto de cabeça. 
          O que não previram foi a paixão avassaladora que sobreveio. Era casado. E já mantinha outro caso extraconjugal com uma colega. Agora a paixão pela fisioterapeuta. A coisa estava ficando difícil de administrar. 
          O diabo era resistir aos encantos da mais recente conquista. Seus carinhos na cama o levavam ao êxtase. As forças se lhe exauriam após uma tarde de amor. Não reunia a determinação necessária para pôr fim ao romance. 
          Assim, se deixava ficar. Decidiu nada decidir. Sabia que era péssimo negócio se envolver com alguém no trabalho. Vê-la quase todo dia causava-lhe uma espécie de náusea, de dormência difusa. Dir-se-ia que ela o drogava com sua presença.
          Lá pelas tantas, desmanchou o namoro. Coisas da vida, tudo que começa acaba. Era melhor assim. Já tinha uma amante. Ter duas era o fim da picada. Se os casos viessem a se tornar públicos, seria um escândalo. Saiu do encontro sentindo-se mais leve. Menos uma a dar conta.

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          O marido tinha um diagnóstico psiquiátrico, um boderline talvez. Equilibrava-se com as sessões que freqüentava.
          Ela caiu na besteira de confessar-lhe o caso, mais um. Ora, o sujeito na peleja entre a sanidade e a loucura definitiva não há que se manter somente com a conversa das sessões, inda mais os chifres a lhe nascerem à cabeça. Tinha de recorrer aos fármacos. Caso sério: -chifre tratado com pílulas. Nunca se tinha visto disso. Ela lhe empurrava as pílulas. Ligava para o terapeuta e ia buscar a receita. Se não usasse os remédios, ela lhe poria mais chifres.
          O homem era acometido de crises de choro fácil, autoestima baixa, o diabo. Que mulher iria querer homem cheio de ziquizira? Tinha medo de deixá-lo, sei lá. Era até melhor que o fizesse. Às vezes ele tinha períodos de euforia. Era quando virava gente. 
            
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          Num desses períodos, arrumou na cabeça as ideias e encafifou de contratar detetive. Antes quis saber tudo, que ela lhe contasse os detalhes. Quem era, onde morava, onde trabalhava, tudo. Ela, que já tinha feito a doidice de lhe contar o milagre, não teve outra saída senão emendar o serviço e confessar o santo. Quando ele virava gente era capaz de tudo. Se ela não falasse, levaria uns sopapos. Com efeito, tentou não falar, e acabou levando umas bordoadas.
           A missão do espião era colher provas. Não acreditava que a mulher e o amante houvessem desmanchado o romance. Queria fotos, gravações telefônicas, tudo que testemunhasse o seguimento do caso. Tudo no mais sepulcral segredo. Ela, é obvio, de nada sabia.
          O homem caiu em campo. Cobrava caro, mas prometia serviço de primeira. Não se preocupasse. As provas serviriam até num tribunal internacional se preciso fosse.

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         Nada descobriu. Ou melhor, nada entre a mulher e o amante. Descobriu, isso sim, o caso do amante com a amante. “Infelizmente, doutor, o homem está limpo”, decretou o espião. "Está saindo com outra dona aí; não tem nada com vossa mulher. Pode ficar tranqüilo.” E lhe entregou as provas da farra do desafeto com a outra.
          Como lhe funcionasse bem a cabeça, enviou as provas à esposa do ex-amante da mulher. Queria lhe transformar a vida num inferno. Essa seria sua vingança. Desfaria o lar do oponente. Plantaria lá os ventos da desavença e da desconfiança. Veria a família ruir ante seus olhos. Esperasse para ver. Antes, porém, fez uma ligação à esposa traída: -“É um garanhão! Sai com todo mundo, o safado! Saía com minha mulher, o escroto!”

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          A esposa não era besta; desde cedo tinha lá suas desconfianças da fulana. Afinal, fora sua amiga. Dela afastou-se tão logo percebeu algo. Não queria ver, nem saber, nem suspeitar. Preferia a inocência da ignorância. Tanto é que quase nada quis ver ou ouvir no material que lhe remeteu o chifrudo. Tinha a filha. Não queria ver a filha envolta nas safadezas do pai.
          Ponderou e silenciou. Era mais negócio. A fim de não passar por idiota, entretanto, lançava, de quando em quando ao marido, as farpas da constatação: - soubesse que ela sabia! O que mais a fazia sofrer eram as palavras do corno ao telefone: -“É um garanhão!” E ponto final. A bomba do corno não explodiu. E o corno, que ainda não despedira o detetive, tornou-se conhecedor da frustração de seu intento.
          O sujeito que sofre das faculdades mentais lida mal com as decepções e insucessos. Acaba por abandonar o tratamento e torna-se, ele próprio, uma granada sem pino.

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          Foi bater no consultório do rival. Foi entrando sem anúncio, numa explícita invasão. O outro estava sentado à larga mesa atendendo um paciente, e ergueu-se num pulo à visão daquele sujeito que entrava sem à porta bater. Não houve tempo para nada. Os dois se atracaram aos murros e pontapés. Vieram de lá a atendente e o segurança aos gritos. Os doentes que aguardavam à sala de espera nada entendiam, e horrorizavam-se ante o surreal espetáculo. Tudo foi muito rápido. Felizmente sem tragédia maior foi o tumulto contornado e o corno posto no olho da rua.
          O médico interrompeu o atendimento no consultório e foi queixar-se no distrito. Terminado o relato, o delegado, homem experiente dos litígios corpo a corpo dessa vida, indagou rilhando os dentes: -“O doutor tem a certeza de que não tem negócio de mulher nessa história, não?” Ao que o respeitável esculápio respondeu: -“Que é isso, seu delegado?? Não diga isso nem de brincadeira..."!!

Fernando Cavalcanti, 14.09.2009