quarta-feira, 25 de junho de 2014

A SAÚDE OU O REGABOFE?

          Descobri hoje, estarrecido, quanto ganhavam as meninas do centro cirúrgico do IJF pelas horas extras que faziam: R$ 3,67 (três reais e sessenta e sete centavos) por hora. Isso mesmo: R$ 44,00 (quarenta e quatro reais) o plantão de doze horas. As horas extras eram contratadas pela instituição para fazer face ao déficit de pessoal em áreas mais críticas do hospital. Em outras palavras, faltam recursos humanos no IJF.
          Eu tencionava escrever sobre a que nível o ser humano desce por dinheiro, tanto para acumulá-lo em excesso quanto para se vender por quase nada. Contudo, se as meninas aceitam essa mísera paga é porque ela lhes serve de algo. E se serve e lhes foi tirada, me pareceu melhor analisar uma suposta razão pela qual o foi. Ou, se assim não foi, instigar a reflexão sobre outras possíveis explicações.    
          Notícia veiculada hoje pelo jornal Diário do Nordeste dá conta dos movimentos da prefeitura no sentido de contratar a empresa que vai organizar, coordenar e executar a parte estrutural da festa de passagem do ano na cidade. A reportagem lembra que o Tribunal de Contas do Município ainda investiga supostas irregularidades no uso de recursos do tesouro municipal no evento 2006/2007. Foram gastos um total de R$ 2.097.500,00 (dois milhões noventa e sete mil e quinhentos reais), dos quais a prefeitura teria entrado com “apenas” R$ 150.000 (cento e cinqüenta mil reais), segundo seus advogados. Esses cento e cinqüenta mil reais foram gastos com os fogos de artifício. Quem quiser ou duvidar, leia a reportagem.
          Vamos ver as contas. Com esses cento e cinqüenta mil reais daria para pagar 40.972 horas extras, ou 3.406 turnos extras, ou 142 dias extras, ou 4,7 meses extras. Interessante é que, segundo os funcionários, a justificativa dada para a suspensão do pagamento dessas horas foi a de que não há recursos. Deixa-se, então, que falte pessoal e que os que estão trabalhando tenham a carga de trabalho aumentada. E que trabalho! Os funcionários que estão em seus turnos normais vão ter, por exemplo, de cobrir eventuais faltas de outros. Dito de outra maneira, os funcionários trabalharão mais sem nenhum acréscimo em seu salário. Quem conhece o IJF por dentro sabe o que isso significa.
          É provável que o custo para queimar aqueles belíssimos fogos tenha subido durante esses anos. A prefeitura, se resolver ficar novamente apenas com essa parte da festa, provavelmente vai precisar desembolsar mais do que em 2006/2007. Mas, digamos que não. Digamos que os vendedores de fogos sejam eleitores da Luizianne e gostem muito dela. Digamos que eles congelem os preços dos foguetes e chuviscos coloridos por pura simpatia com a administração municipal e mantenham seus preços iguais aos de 2006/2007. Já fizemos os cálculos. Diga o que quiser, a prefeitura agirá para mostrar que prefere queimar fogos a oferecer melhor serviço aos pacientes que procuram a maior Emergência do Norte e do Nordeste do país.
          Hoje estive no centro cirúrgico do IJF. Salas vazias, poucos funcionários. Enfermarias com doentes à espera de suas operações para irem para casa. Não se operam os pacientes porque não há pessoal. A festa está sendo preparada. Engraçado é que, quanto mais tempo os doentes passam no hospital, mais sobem os custos para mantê-los ali. É uma coisa que não se entende. Ou por outra, se entende, sim. Trata-se do velho descaso do poder público com a saúde. Ou ainda, virão os defensores da prefeitura argumentar, talvez, que uma coisa não tem nada a ver com a outra, que existe uma verba específica para as festas, e assim por diante. Nas famílias, quando a coisa aperta não há verba especifica para festas que impeça seu chefe de “desviar” seus recursos para o mais importante.
         Ou, vejam: “a gestão municipal busca com essas ações promover Fortaleza como destino turístico para a festa de fim de ano e, concomitantemente, torná-la um espaço de inclusão social, através do fomento da atividade turística, em especial o segmento de eventos”, segundo a secretaria de turismo do município. Eis aí a explicação que não explica. Como pode haver inclusão social nessa cidade se suas vítimas estão na fila para depois dos fogos?
          
                                                                             "O que você faz fala tão alto que não consigo ouvir que você diz.” (Ralph Waldo Emerson (1803-1882)

Fernando Cavalcanti, 15.10.2009