sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Menos um poeta

“...eis o dilema:
(com)parar,
ou (con)seguir.”

(Chico Passeata)

            Dias há em que não se espera muito da vida. Há algum tempo um amigo me escreveu. Dizia: -“Quero te contar da avalanche que sobreveio à minha vida...” E queria marcar um almoço ou jantar onde pudesse expor a sua nudez de desvalido ao amigo que dizia tanto amar.
            Apesar de me colocar à disposição para ouvi-lo à hora que quisesse e bem entendesse, seu convite nunca veio. Concluí que há ímpetos dos quais o ser humano se arrepende.
            Outro dia estava a almoçar com uma amiga e, na mesa ao lado, alguém me chama. Era o meu querido amigo e poeta Chico Passeata. Cumprimentou-me com uma efusão que, até hoje, julgo não merecer. Então, passou-me um pequeno pedaço de papel onde rabiscara, naquele exato momento, as palavras colocadas em epígrafe neste texto.
            Observem vocês a sensibilidade do homem expressa da forma mais lírica possível, e escrita à fuga das regras da métrica e da sintaxe; toda uma carga de sentimentos preenchendo todas as possibilidades sinonímicas de cada palavra e até de toda e cada sílaba; toda uma canção embutida numa única e mínima estrofe; toda a beleza sonora que emite significados mil. Chico era um grande poeta.
            Digo “era” porque hoje pela manhã recebi mensagem dando conta de sua prematura morte. Eu desconhecia a doença que lhe ceifou a vida. Foi, então, um choque para mim.
            Dias há em que não se espera muito da vida.