quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Um indefensável mau caráter

Eu bem sei que já falei demais das redes sociais. E todos sabem também que, aparentemente, delas não falei bem. Todavia, muitos sabem de minha afeição a obsessões, digamos, benignas. Definam “obsessão benigna” como quiserem, mas tudo o que é benigno é supostamente bom. Sei, sei, toda obsessão tem, a princípio, uma conotação pejorativa. É o que se deduz, de fato, ao ler-lhe o significado no pai dos burros. Uma obsessão benigna seria uma dessas exceções que tendem a zero, quase uma singularidade da semântica, onde as regras e as leis deixariam de existir.
            Pois por tudo isso é que minha obsessão nas redes sociais tem levado muitos amigos a me julgar mal, ou a mal interpretar minhas justificativas e alegações. A título de revigoramento da memória, repito - imputo às redes sociais um excelente campo para a divulgação do que é bom e daquilo que qualquer um julgue necessário e pertinente; e critico acidamente a exposição individual deslavada que se pratica nas redes sociais. Eis aí uma síntese do que penso.
            O problema de se decidir o que é bom a ser divulgado nas redes sociais é digno de nota. Quem decide? Cada um decide o que divulga nas redes. Cada um é cada um. Aquilo que para alguém é importante para outro não passará de abobrinha. Aí está um dilema sem expectativa de solução. Contudo, isso não tem a menor importância. Toda pessoa tem o direito de manifestar e divulgar o que quiser. O que me parece deselegante é a autopromoção, seja nas redes sociais, seja no restaurante, seja onde for. No dizer do Casoba, quem elogia a noiva é o noivo. Assim, tanto a auto-exposição desmesurada quanto o auto-elogio nas redes sociais são execráveis.
            Ainda assim há quem pense diferente, e nada mais natural. Quem quiser postar sua senha bancária nas redes sociais que o faça, sem esquecer de enviar também o número da conta e o código da agência. Muitos ficarão gratos. Há um monte de gente precisando de dinheiro. Uma amiga que há muito não vejo viajou à América com a filha pequena. Como descobri? Ela escreveu na rede social que suas malas já estavam prontas, ao que uma conhecida respondeu: -“Faça boa viagem, e traga uma réplica da Estátua da Liberdade!” De lá postará as fotos dos passeios, do hotel, do avião... Saberemos tudo.  
            Outro dia, semana passada, um amigo comemorou seu aniversário em conhecido point da cidade. Foi uma dessas festas a ficar nos anais. Como homem da noite que é, fez tudo no requinte, do bom e do melhor. Por dias seguidos falava-se da festa, e criou-se uma expectativa deveras positiva sobre o evento. Para resumir, não deu outra: - a festa de aniversário de meu amigo foi um desbunde.
            Hoje em dia há a possibilidade de se fotografar tudo, em qualquer lugar, a qualquer hora, sob quaisquer circunstâncias. Os telefones celulares, engenhocas ubíquas, têm, muitos deles, sua própria câmera fotográfica. Além dos telefones portáteis, estava na festa uma bela fotógrafa, encarregada pelo anfitrião de retratar todos, sem exceção. Fosse em poses ou inadvertidamente, todos os que lá estavam acabaram por ser fotografados. Ao dia seguinte o rega-bofe estava por inteiro nas redes sociais.
Outro amigo, que brigara com a namorada justo ao dia da patuscada, pensava de si para si: -“Vou ou não vou?” E a dúvida cruel o assediava até ao momento final quando, por não se sabe quais razões, resolveu se abster da farra e ir dormir mais cedo. Sua pequena, conhecedora por prévia experiência das artimanhas do amado, e não tendo conseguido fazer com ele as pazes antes do final da noite, executou o que já se torna hábito comum aos dias de hoje: - foi às redes sociais em busca da exposição das fotos da comezaina. E não é que ela batia pé afirmando que lá ele estava, numa fotografia, de costas, vestido em camisa que ela muito conhecia? De nada adiantou o homem jurar por todos os santos que já àquela hora dormia o sono dos justos.
Aí está o exemplo de tragédia patrocinada à sombra das redes sociais. Hoje não mais se pode pensar em sair por aí, como no caso de meu amigo em entrevero com sua pequena, para dar um passeio, espairecer a cabeça, tomar uns tragos inocentes. Sem que queira, sem que saiba, possa ser que o incauto indivíduo se veja subitamente envolto em suspeitas de proporções desconhecidas apenas por se fazer presente a uma pândega entre amigos. Ainda que lá permaneça por poucos minutos, ainda que vá somente felicitar o aniversariante, o sujeito exposto nas redes sociais torna-se, sob a óptica implacável da consorte, um mau caráter indefensável. E os que tiverem sósias estão sujeitos até ao assassínio!