terça-feira, 2 de agosto de 2011

O Dia do Solteiro e o Dia da Tia Solteirona

Viram que no último domingo se comemorou o dia do orgasmo. Em que pese o inconformismo de uma parcela de nós sobre a existência da “comemoração” de tão inusitado dia, não houve jeito – no 31 de julho próximo passado soltaram-se fogos pelo dia do orgasmo. A propósito, fogos e orgasmos têm muito a ver. Possivelmente mais do que isso. Há quem tenha orgasmos de forma semelhante ao ribombar de fogos de artifício.
            É sabido que o neurótico é aquele, ou aquela, que sabe que dois mais dois são quatro, mas não se conforma. Se admitisse e desse por encerrado que dois mais dois são quatro, deixaria de ser neurótico no segundo seguinte. Bem se vê que a neurose seria curada sem médico, psicólogo ou qualquer tipo dedicado ao tratamento dos transtornos mentais. Em alto e bom som afirmo: - a cura da neurose é uma questão de decisão pessoal, desculpem-me lá o doutor William Cullen e os diversos correntistas da psicologia.
            Relacionemos os dois parágrafos precedentes através de um exemplo. Seja um indivíduo inconformado com a criação e a existência do dia do orgasmo. Ainda que o considere uma aberração, e é bem possível que esteja certo, o melhor que tem a fazer é aceitar o fato. Estará irremediavelmente sadio. Eis aí tudo.
            O que muitos ainda não sabem é que no próximo dia 15 de agosto se comemora o dia do solteiro. O solteiro é um indivíduo em plena gestação, em plena ascensão, em plena fase de “criação”. Falo do solteiro convicto, não do solteiro eventual ou de outro tipo.
            Há, para os que ainda não se aperceberam, dois tipos de solteiro convicto: o convicto essencial e o convicto “secundário”. O essencial é o que jamais contraiu matrimônio, ao passo que o secundário é o que já foi casado não importa quantas vezes. Os solteiros eventuais incluem aqueles com o “cérebro de casado”. O solteiro “cérebro de casado” é um tipo bem específico. Inclui aqueles, ou aquelas, que pensam sempre em termos fechados em relação a tudo que se refira a uma relação amorosa. Eles estão, peremptoriamente, excluídos da classe dos solteiros convictos.
            Digo que o solteiro é um espécime em plena criação porque, em que pese o fato de em nosso país ter vigorado desde sempre a idéia da instituição do casamento como um fim, eles se multiplicam a olhos vistos, e agora sem as repreensões e repressões do passado. A idéia de casar parece ainda ser a preponderante, mas é sensível o aumento no número de solteiros convictos, de um tipo ou de outro. Talvez por isso tenha vindo de lá alguém e criado o dia para comemorar o fenômeno.
            Boa idéia foi a criação da ASA, aqui em Fortaleza.
            Para os que não conhecem, a ASA (Associação dos Solteiros Assumidos) – entidade criada há sabe-se lá quanto tempo e com que finalidade – foi fundada por um grupo de amigas decididas a permanecer livres das opressões, caprichos e tiranias do gênero masculino sem, contudo, divergir de suas preferências sexuais iniciais. Permanecem hétero até debaixo d’água. Quase todas, senão todas, já haviam sido vítimas do conto de fadas pelo menos uma vez. Depois, a associação passou a receber o ingresso de homens também interessados na solteirice assumida, e hoje permanece aberta à adesão de novos membros.
            Alguém teria comentado que a razão do desprestígio do dia do solteiro teria como razão principal sua falta de apelo comercial, mas tal conclusão se mostra destituída de embasamento quando se constata a existência de agências de turismo voltadas a este público específico (http://www.terrazul.tur.br/).
Lamentável constatação foi a descoberta da existência do Dia da Tia Solteirona, 25 de setembro. A julgar que os dias comemorativos servem a nos levar a festejar o objeto de devoção daquele dia, custa-me acreditar que se queira comemorar tal dia. Vejam o dia do médico (18 de outubro), o dia do músico (22 de novembro), o dia do garçom (11 de agosto). Todos são datas em que se homenageiam esses profissionais. E o que dizer do dia do palhaço (10 de dezembro) e do dia do vizinho (23 de dezembro)? Algo de bom se faz aos lembrados em seu dia.
E o Dia da Tia Solteirona? O que se pretende ao se “comemorar” esse dia? A pobre mulher já não foi vítima do dia do solteiro? Para que torturá-la com mais essa constatação de sua rejeição? E aqui percebemos a existência de mais um tipo de solteiro: - o compulsório, por contingências da vida. Ela é um tipo de solteiro convicto cuja convicção não é necessariamente a sua, mas a dos outros. A esse tipo lhe ficou reservado um dia especial.
            Encerro lembrando aos amigos membros da ASA que há ainda bastante tempo para que se organize um evento de modo a não deixar passar em branco o próximo 15 de agosto, dia do solteiro. E que tal criar um grupo facebookiano para lembrar o dia?