terça-feira, 23 de agosto de 2011

A desgraça que é um Pinto mole


Estou com amigos em animado sarau e eis que me toca o telefone portátil. Era o Padilha. Queria me encomendar uma crônica. Uma não: duas. De fato, o homem me bateu o telefone por duas vezes. Na primeira queria uma crônica; na segunda, duas.
            Aconteceu o seguinte. Está a se divorciar o Pinto. Não sei se se recordam do Pinto. Há tempos escrevi sobre dois encontros que com ele tive, por coincidência, ao fim do mês. Ressaltei, então, o lastimável estado de meu amigo porquanto ao fim do mês o homem está tão duro que, se lhe revirarmos de ponta cabeça, não lhe cairá um mísero tostão dos bolsos. Ao fim do mês o Pinto está duro e numa penúria de dar dó. Mês a mês é a mesma coisa. Não bastasse isso, agora o divórcio.
            O Padilha falava, falava, e eu nada entendia. O barulho era ensurdecedor, de modo que me afastei um pouco a fim de ouvi-lo. Com algum custo passei a entendê-lo. O caso é que, passou a relatar o Padilha, o Pinto ainda não saiu de casa. Ainda coabita com a mulher. Motivo: a pindaíba. Se todo mês ao fim do mês estava duro o Pinto, calculem como seria divorciado – um Pinto indefinidamente duro, o mês inteiro.
            Ocorreu, então, de saírem juntos com os filhos a um desses shoppings o Padilha e o Pinto. Enquanto as crianças brincavam no parque, confabulavam os amigos sobre as vicissitudes da vida, o futuro, as intempéries do matrimônio, enfim, se acumpliciavam e se consolavam mutuamente. Estavam ali numa mesa próxima ao parque quando se aproxima uma gostosa a segurar pela mão a filhinha pequena, amiga da filha do Pinto.
            Ontem falei da gostosa da Beira-Mar, a gostosa de vinte e poucos anos que não se permite flertar pelo cinqüentão. (Segundo uma amiga, ela flerta ou não, a depender da conta bancária do cinqüentão.) Ali no shopping, a se aproximar do Padilha e do Pinto, a essas alturas mais duro do que ferro frio, a gostosa era mais entrada em anos. Sim, a gostosa do shopping era a coroa gostosa, nas palavras do próprio Padilha. Vinha de lá requebrante e sensual, exalando um desses perfumes que atiçam o apetite, e no rosto um sorriso franco e cativante. Em tudo que tange ao comportamento diferia a coroa gostosa da gostosa de vinte e poucos. O Pinto, em sua melancolia de meio divorciado, via aquela mulher rechonchuda e insinuante e sonhava acordado. Por uns poucos segundos mergulhou o Pinto em estado de suspensão dos outros sentidos e sonhou todos os sonhos de abstêmio sexual.
            Em poucas palavras os três se conheceram, tudo em função da amizade das crianças. Em algum momento da conversa, Padilha denunciou à bela coroa o deplorável estado civil do amigo. Pinto, é bom que se diga, experimentou um certo gozo na anunciação de sua solteirice àquele belo espécime de mulher. Era como se já vislumbrasse uma outra vida além dos portais do casamento desfeito. O Padilha, casado até a alma e safado até os dentes, empenhava-se em trabalhar para que o amigo e a coroa já se vissem com outros olhos, já que ela era divorciada de há muito.
            Dali a pouco se despediram.
            Estava em casa poucos instantes depois o Padilha, quando buzinam lá fora. Vai ver quem é. O carro era o do Pinto. Vinham a mulher, o Pinto e os dois filhos. Pinto permaneceu sentado à direção, enquanto a mulher abre a porta do carona e desce. Vem ao encontro do Padilha. De dedo em riste na cara do outro, deblatera: -“Não quero que ninguém saiba que estamos nos separando! Você me faça o favor de segurar essa língua frouxa!” Vira-se, entra no carro, Pinto dá a partida e acelera. Padilha ficou na calçada parado, meio zonzo.
            No telefone comigo grita: -“Esse Pinto é um borra-botas! Um molóide! A mulher faz e acontece e ele nada! Seu casamento é uma mentira! Seu divórcio é uma mentira! Eu, hein?!” E desligou esquecendo-se de me dizer sobre o que queria que eu escrevesse.